opinião

http://www.conexaojornalismo.com.br/colunas/cultura/documentarios/critica-ate-onde-pode-chegar-um-filme-de-familia-video-32-52935

Artista não é pedinte, é trabalhador

Você já se perguntou como teria sido desesperadora sua quarentena se os artistas não existissem? Quantos filmes você assistiu? Quantos livros leu? Quantas mensagens ilustradas com pinturas incríveis recebeu? Quanta música você ouviu em sua playlist favorita? Quantos poemas te reanimaram? Quantas peças de teatro viu pela internet? Quantas notícias sobre a vida e a morte de atores, atrizes, escritores, escritoras, poetas, pintores, pintoras, músicos, bailarinos, você leu na tela do seu celular, deitado em sua cama, porque não conseguia dormir ou porque acordou depois do meio-dia? Percebeu como teria sido bem mais difícil para sua vida este período que estamos vivendo?

A pergunta que não quer calar?

Por que os artistas não são valorizados? Por que você olha para o artista como se ele fosse um ET? Porque você diz para o seu filho ou filha que essa vida não tem futuro? Porque os artistas precisam ficar pedindo apoios, implorando auxílios a sociedade que eles tanto prestam importante serviço?

Um recente vídeo feito por artistas quase imploram aos vereadores do Rio de Janeiro apoio para o audiovisual. Os artistas também têm culpa nesse cartório. Os vereadores de qualquer cidade do Brasil têm a obrigação, repito, a obrigação de prestar a atenção às Artes e à Cultura. Não é favor. É obrigação e direito do povo.

Outro absurdo. Vi publicado em diversos veículos da imprensa que foi uma surpresa a Lei Aldir Blanc de Emergência Cultural ter sido aprovada praticamente por unanimidade no Congresso Nacional e rapidamente ser sancionada pelo executivo federal. Surpresa por que?

Somente néscios seriam contra a aprovação da Lei. Essa justa Lei deveria é ter sido aprovada juntamente com o auxílio emergencial para todos os trabalhadores, logo no começo da pandemia. Conclusão, os artistas estão até agora desprotegidos. Artista é trabalhador, não é vagabundo sonhador.

Você que não é artista tente escrever um livro, decorar um texto de 60 páginas, encenar uma peça teatral por duas horas, faça um show para uma plateia lotada, fique horas diante de uma tela tentando equilibrar forma e conteúdo ou estudando por horas um instrumento musical, tente produzir um filme, tente fazer o movimento perfeito ao dançar. Meu Deus, até quando continuaremos com essa ladainha insuportável?

Está mais que na hora dos artistas serem respeitados de fato. O Estado deve tomar um chá de vergonha na cara e realmente cuidar das artes e da Cultura e das Artes. Elas fazem parte do Estado, assim como a Educação a Saúde, a Segurança. Não é favor. É obrigação. Os altos impostos que pagamos servem também para as Artes e a Cultura.

Se você não concorda, ajude a construir uma grande nave espacial para enviar todos os artistas para outro planeta. Fique com a Terra todinha para você. Quero ver você aguentar outra pandemia sem os artistas aliviando suas dores.

Artista não é pedinte, é trabalhador.

Moinho de ventos da liberdade (Francis Ivanovich)

13/07/2020

Não compreendo a surpresa com as recentes declarações do novo Ministro da Educação, Milton Ribeiro. Ele simplesmente reza na cartilha de um governo óbvio em sua incompetência, retrógrado nas ideias, ultrapassado pelo tempo. Prefiro escrever sobre Educação. Deixo a tarefa de falar sobre o atual Ministério da Educação para os meus colegas. A educação com seu inerente poder transformador, para não dizer, revolucionário. Infelizmente o Brasil pagará caro por tudo o que está aí, esta grande confusão, este equívoco proveniente das urnas. Veremos mais gerações desperdiçadas, um país que, apesar da sua potência natural, continuará periférico, isolado, exótico, atrasado.

Assisti O Menino que Descobriu o Vento, de 2019, dirigido, com Chiwetel Ejiofor que também estreia como diretor. O filme é baseado no livro de memórias The Boy Who Harnessed The Wind, de William Kamkwamba e Bryan Mealer. Pode ser visto no Netflix.

O filme é um exemplo claro do que representa o poder da educação. Ele conta a história real de William Kamkwamba, que vive numa aldeia da África afetada por questões climáticas, após a derrubada de árvores que protegiam as terras contra enchentes e a seca. O menino estuda com muita dificuldade na única escola da região, e seus pais estão em atraso com as mensalidades. Mesmo sem poder frequentar às aulas devido aos débitos, não desiste dela, frequenta-a às escondidas. O jovem encontra na biblioteca escolar a resposta para a fome que sua família e seu povo estão passando. A construção de um moinho de vento que irá acionar uma bomba de água ligada a um poço artesiano, irrigando a terra e a tornando fértil outra vez.

O pai de Willian não acredita no “brinquedo do filho”, no entanto, o menino de 13 anos o confronta, ao dizer que ele frequentou a escola e nela aprendeu coisas que o pai não sabe. Um dos componentes fundamentais para o projeto do moinho será a querida bicicleta do pai de Willian, que terá de ser desmontada, cortada, fornecendo peças indispensáveis ao funcionamento do moinho de vento, recurso energético abundante na região.

O filme demonstra como a educação tem o poder de apontar soluções e caminhos para uma vida melhor, com mais justiça, e liberdade. Como se surpreender com as declarações do atual ministro da educação, o quarto a ocupar o cargo neste governo, quando o presidente da república explicita todos os dias ser alguém que prefere andar de bicicleta do que fazer girar um moinho de vento?

Outros pontos importantes levantados pelo filme, são as questões climáticas e energéticas, o aproveitamento inteligente da energia limpa. O Brasil hoje está destruindo a Amazônia e desperdiça sol e vento, por total falta de objetivos claros visando o futuro. O Brasil é a terra do desperdício. Desperdício de inteligências, recursos naturais e vida. A mediocridade domina nossos gabinetes.

Todas essas questões estão conectadas à questão central que é a educação. Enquanto o Brasil não assumir de verdade este compromisso com o seu povo, tudo continuará na mesma. Continuaremos a nos equilibrar sobre bicicletas, e sem coragem de tornar esta terra fértil movida  a moinhos de vento da liberdade.

Carta a Rede Social  (Francis Ivanovich)

08/07/2020

Textão de Francis Ivanovich

Prezada Senhora Rede Social, não imaginavas que teria tantas responsabilidades perante o mundo, não é mesmo? Nem em seus sonhos mais secretos pensou que chegaria onde chegou, que seria conhecida em todo o planeta e que bilhões de pessoas estariam lhe entregando informações tão preciosas e importantes. Recentemente, 60 grandes empresas decidiram suspender a publicidade nos seus espaços. A senhora ficou deveras preocupada. Dinheiro é coisa séria, acionistas são muito mais. O preço das ações não podem despencar, jamais! Os anunciantes alegam que não podem associar suas marcas tão “puras” num ambiente contaminado pelo ódio, ofensas, desrespeito humano. O que a senhora fará? Continuará a alegar que se trata tão somente de liberdade de expressão?

Vemos todos os dias a senhora exibir mensagens que deveriam ser banidas da Internet. Sabemos que há tecnologia capaz de detectar certas palavras, muitas delas perigosas. Há gente que realmente não deveria estar com a senhora. Recentemente vi um comentário repugnante contra uma mulher, feita por um sujeito sem escrúpulos. A senhora bem que poderia suspende-lo por uns seis meses, bloqueando-o como punição. Em caso de reincidência poderia dobrar para 12 meses, e em nova reincidência, exclusão. Tenho a certeza que a senhora teria uma alma e um ambiente mais livre, e essas pessoas pensariam com mais cuidado no que iriam postar.

No entanto, a senhora prefere ficar em cima do muro, aparentemente alheia ao que ocorre a cada segundo, a cada clic em suas páginas. Desta vez foram 60 empresas, amanhã serão 120, depois, quem sabe, não seremos nós os usuários, cansado de tantos absurdos circulando livremente pelo seu corpo, sua boca, como se na vida real tudo fosse permitido, não houvessem regras, nem Lei. A vida virtual, senhora, deve ser pautada pela vida real, e não o contrário. O lucro a qualquer preço não vale.

Esta humilde missiva para a senhora tem a esperança de que contribua para o saudável debate sobre um melhor relacionamento entre nós. Não sou a favor de proibições, senhora, mas certos comportamentos não podem ser tolerados, certas palavras não podem ser escritas, certas ideias não podem ser divulgadas, principalmente àquelas que carregam sangue, ódio, racismo, o preconceito, o desprezo à vida humana e à democracia.

A senhora é  uma maravilha, quando realmente cumpre o seu papel que é o de aproximar as pessoas, ajudar na construção de um mundo livre e humano. Na pandemia do COVID-19 a senhora foi fundamental para salvar mentes e vidas, combater a solidão e a dor, a difusão de notícias importantes na prevenção da doença, mas também a senhora foi o lugar onde gente má intencionada pôs prática suas ações covardes. Rogo-lhe senhora, é hora de botar ordem na casa. Caso contrário, senhora, a casa poderá cair.

Com os meus melhores cumprimentos,

Francis Ivanovich (Jornalista, escritor, dramaturgo e cineasta)

Noitada desmascarada (Francis Ivanovich)

06/07/2020

Textão de Francis Ivanovich

“As meninas do Leblon não olham mais pra mim, eu uso óculos”… Quem não se lembra dessa cancão divertida na voz de Herbert Vianna, Os Paralamas do Sucesso? A letra hoje poderia ser: As meninas do Leblon não olham mais pra mim, eu uso máscara! O vídeo que circulou nas redes sociais mostrando os bares do Leblon lotados, e pessoas debochando do distanciamento social desmascarou de uma vez por todas a completa falta de sensibilidade de determinada classe social diante do que ocorre no Brasil e no mundo.

Pesquisas realizadas por infectologistas de importantes universidades brasileiras demonstram que não são em bairros como o do Leblon, com seus cantinhos cool, que o COVID-19 faz vítimas mortais. Os que estão morrendo são os trabalhadores que moram longe, em bairros sem glamour, obrigados a pegar transporte público para botar comida na mesa para os seus, e que permitem o funcionamento parcial do país. Eles são os trabalhadores essenciais.

Enquanto no Leblon vimos uma aglomeração dispensável, a cerveja gelada para celebrar o reencontro de amigos entediados, nos hospitais esses mais desfavorecidos lutam pela vida acompanhados por profissionais de saúde sem tempo para o brinde. A falta de empatia, respeito pela vida humana no Brasil ultrapassou todos os limites. A estupidez é assombrosa. A narradora do vídeo brincando que todos estavam distantes, usando máscara, quando as imagens mostravam o oposto disso, são dolorosas. O fechamento dos bares no dia seguinte merece aplauso.

Infelizmente no Brasil continuamos com a mentalidade do salva-se quem puder, meu pirão primeiro. Caminhamos para 100 mil mortes – um Maracanã lotado – e parece que isso é normal. Os que perderam a vida, e muitos desses também negavam a pandemia, merecem respeito. Os bares antes de abrir as portas deveriam fazer um minuto de silêncio, todos os dias. Isso porque todos os dias morrem pais, mãe, avôs, avós, irmãos, filhos. Morrem brasileiros.

Mas como exigir tal comportamento respeitoso dos cidadãos, se o mandatário do país apela à Justiça para vetar o uso obrigatório de mascaras? Complicado. O Brasil urge por civilidade. O Brasil parece terra de ninguém. Uma bagunça geral. A divertida música de Herbert Vianna que canta um tempo em que o Leblon tinha seu charme, jamais pensei que iria usa-la para tal comentário. Peço desculpas aos músicos. O Brasil precisa mais do que óculos e máscara, precisa é de vergonha na cara.

Francis Ivanovich é jornalista, dramaturgo e cineasta.

Vacina: A ciência brasileira precisa ser valorizada (Francis Ivanovich)

28/06/2020

Textão de Francis Ivanovich*

Neste momento em que você lê este artigo, há pesquisadores e pesquisadoras trabalhando em laboratórios espalhados pelo mundo para a descoberta de uma vacina ou tratamentos para o COVID 19. São profissionais que não vivem sob os holofotes, mas silenciosamente se debruçam sobre questões muito sérias, que visam literalmente libertar a humanidade desse pesadelo.

A pesquisa científica é de suma importância para a vida. Infelizmente o Brasil não investe em pesquisa com deveria, é comum talentos da ciência brasileira serem obrigados a transferirem-se para o exterior, onde vão encontrar dignidade e condições de trabalho. Temos centros de referência em pesquisa no Brasil, como o Instituto Oswaldo Cruz, em Manguinho, Rio de Janeiro, por exemplo, mas sabemos que dentro das suas quatro paredes os desafios são muitos, e o principal é o escasso investimento, sempre na ponta do lápis.

A corrida pela descoberta de uma vacina contra o COVID 19, criou uma situação nunca antes vista, o reconhecimento da importância da pesquisa científica pelo homem comum. Todos e todas literalmente rezam para que o dia da vacina salvadora chegue, e certamente nesses dia, os responsáveis receberão agradecimentos e mensagens sinceras nas redes sociais. No entanto, isto é pouco. Devemos sim pressionar os governos para que desde a escola básica a ciência seja de fato valorizada, estimulando o aparecimento de novos pesquisadores e pesquisadoras.

Devemos cobrar dos que nos governam, os investimentos necessários às pesquisas, equipando laboratórios, valorizando a carreira desses profissionais tão dedicados. Nossos impostos servem também para isso. Não podemos esquecer que a Universidade é um braço fundamental para a pesquisa. O sucateamento das universidades brasileiras é por demais preocupante.

Como escreveu Mariluce Moura, em excelente artigo sobre a pesquisa científica no Brasil para a Academia Brasileira de Ciências, mais de 95% da produção científica do Brasil devem à capacidade de pesquisa de universidades públicas. Daí vemos como é importante a recuperação das nossas universidades e de como o Ministério da Educação vem sendo muito mal gerido, basta recordarmos o desastroso ministro que ocupava a pasta e que me recuso a citar seu nome, pois todos sabemos de quem se trata.

Enquanto a vacina contra o COVID 19 não chega, tentamos sobreviver ao contágio e ao isolamento que tanto nos afeta psicologicamente. Enquanto isso, devemos repensar e cobrar por uma nova política para a ciência brasileira, o que infelizmente demorará com o atual governo.

Francis Ivanovich é jornalista, escritor, dramaturgo e cineasta.

50 mil-03: O surto da falsa normalidade (Francis Ivanovich)

22/06/2020

É domingo, vamos à praia!

É segunda, vamos correr no Aterro!

É terça, uma cerveja gelada!

É quarta, um bate-papo na calçada!

É quinta, um sorriso escancarado!

É sexta, dia da alegria!

É sábado, a feijoada!

É domingo de novo, cadê o povo?

– 50 mil cruzes na paisagem ensolarada!

Francis Ivanovich*

Sol 01: Há de brilhar mais uma vez… (Francis Ivanovich)

19/06/2020

Textão de Francis Ivanovich*

Vivemos dias sem luz. O mundo parece estar coberto por uma pesada sombra. Sobre essa sombra e nossas cabeças atordoadas brilha um sol que nos faz falta em amanheceres sem medo.  Não podemos perder a esperança de que recuperaremos nossas vidas, poderemos realizar tarefas simples, como pisar à rua outra vez e encarar o sol de cara lavada. Que possamos outra vez apertar a mão de um amigo ou um desconhecido sem receio. Neste momento, em alguns laboratórios estão centenas de cientistas trabalhando duro para nos libertar. Enquanto aqui fora os políticos estragam tudo com suas vaidades, ambições e mentiras. A sombra que cobre o mundo é um colcha de retalhos feita de cada um desses seres que se apresentam como donos da verdade, salvadores da pátria, soldados da liberdade.

Sob essa sombra há gente de bem, cansada, mas ainda com forças para resistir a tudo isso que está aí, que nos empurram goela abaixo pelas redes sociais, pelos meios de comunicação, pelo ar quase irrespirável. Uma gente que não tem sensibilidade alguma, que só pensa no próprio umbigo, de um narcisismo incurável. São seres gestados numa doentia construção subjetiva desde a tenra infância. A má pessoa não nasce na barriga, ela é gerada no dia a dia de convívio com adultos estragados, adoradores da violência, mestres da ignorância, profetas do preconceito, radicais da crença em ideias mofadas e fossilizadas no primitivismo das cavernas.

Um novo homem urge neste mundo. Um homem cuja Lei máxima seja o respeito à vida. É por demais exaustivo ver gente que posa de sábio dizendo nada, com seu verniz acadêmico, sua ética falsificada, sua sabedoria embrulhada em papel de presente, quando na prática, no dia real, não passam de mentirosos, crápulas, cínicos. O dinheiro, o poder, a vaidade é o corpo e alma dessa gente. Essa gente está espalhada nos gabinetes mundo, ocupando lugares que jamais poderia ocupar ou chegar perto. Essa gente só quer escravizar, explorar, chupar o sangue, arrancar a alma, usar o outro como passadeira da sua inútil glória.

Não tenho mais esperanças na minha geração, lamento. Só tenho esperanças nos que são pequeninos, nos que estão para nascer. Eles são a sorte do mundo. Essa pandemia dever produzir algum efeito positivo nas gerações vindouras. A minha geração cheira a coisa velha, estragada, largada no sótão da mediocridade. Fico pasmo como as pessoas ainda têm paciência para dar ouvidos a esses supostos sábios de plantão. Os filósofos do Youtube. Eles opinam sobre tudo, do sabonete ao sabão em pó. Vivemos tempos realmente de falsos profetas.

Não surpreende o que está aí. A barbárie travestida de coisa normal. A morte, a violência, o preconceito, a exploração, a fome, a escravidão, a política, as universidades, a própria ciência, as artes, tudo contaminado por esse caleidoscópio de mentiras. A farsa é geral. O conformismo absoluto. Todos acomodados sob a sombra da insensatez. Não importa que morram 10, 20, 100, milhões. Nada importa. As instituições, os sábios, os tribunais, as religiões darão conta??? Não dão conta nem de si mesmas. Falidas. Todas falidas. O vírus desmascarou de vez essa grande fábrica de ilusões que se transformou o mundo “conectado” e “civilizado”.

Qual a saída? Um mundo realmente humano. Um mundo só. O fim de ideias desbotadas como soberania, nação, fronteira, raça. O fim da propriedade privada do mundo. O mundo pertence a todos nós. Como pode um mundo inteiro pertencer à poucas pessoas que controlam alimentos, água, energia, medicamentos, a própria vida? Como isto é aceitável? Utopia, dirão os que preferem a distopia, ou mergulhar numa “utopia negativa”. Lamentável.

Sobre nossas cabeças a sombra persiste, mas sobre ela um sol brilha e aos poucos ele a elimina com sua luz purificadora. Tenho esperanças que as gerações futuras vivam num mundo onde o sol seja a bandeira da justiça e da liberdade. Essas gerações são o meu Sol da esperança.

Francis Ivanovich é escritor, dramaturgo e cineasta.

A geografia do livro (Francis Ivanovich)

15/06/2020

Textão-Poema de Francis Ivanovich*

Livro aberto é asa

Livro fechado é embarcação

Livro de pé é foguete

Livro deitado tábua de salvação

Livro de lado é mão estendida

Livro jogado pro ar é imaginação

Livro no chão é caminho

Livro na poeira é memória

Livro na prisão é história

Livro na fogueira é redenção!

Livro, livrinho, livrão,

De qualquer jeito, maneiras ou posição,

Não é objeto para brincadeiras,

É arma de Revolução!

Francis Ivanovich é escritor, dramaturgo e cineasta*

Cultura 02: Como será? (Francis Ivanovich)

10/06/2020

Textão de Francis Ivanovich*

Ir à livraria favorita, após esta pandemia, não será o mesmo. Assim como ir ao cinema, teatro, dança, show, palestra, debate, performance, exposição, etc. Não importa qual seja a atividade cultural, a relação público – artista – objeto terá um outro tom. Como manusearemos os livros recém lançados, prazer indescritível? Como nos sentaremos na plateia de um teatro, no cinema? Como assistiremos o show tão esperado, lado a lado? Não sabemos que protocolos serão criados, mas dá pra prever situações bem chatas.

Nas livrarias vejo um funcionário exclusivo para distribuir luvas. Não estranharei ver prateleiras tapadas por vidro transparente, vitrines que lembram mais uma loja de sapatos. A gente olhando para o título, babando como criança diante de um doce. O funcionário pergunta: Vai levar? Você humildemente, quase clamando, diz que deseja dar uma folheada; e o funcionário te olha sério e diz: não é permitido!

Num teatro de 100 lugares, por exemplo, veremos reduzido a 50 lugares. Todos e todas sentados distantes, imobilizados, sem tirar suas máscaras. No palco os atores também mascarados, ocultando suas expressões, a fala abafada. Só de imaginar esta cena, tremo de pavor!

Nas salas de cinema a coisa pode ser mais suave. Nem todo filme lota uma sala. As cadeiras vazias não são incomuns. Usar máscara no escurinho só ira atrapalhar o beijo ou comer pipoca. Mas se a bilheteria do filme arrebentar, aí teremos problemas. Aliás, que saudade estamos de um bom cineminha. Já não suportamos a overdose de Netflix.

Um show? Uau! Isso vai ser um deus nos acuda! Como assistir ao show do artista favorito num quadrado desenhado no chão, sem o calor do outro ao lado? E os artistas no palco? Todos de máscara personalizadas, álcool gel escorrendo pelos instrumentos, olhando para a plateia semelhante a um tabuleiro de xadrez. Vai ser difícil respeitar distanciamento social quando o hit inesquecível escapar pelas caixas.

A cultura é um dos segmentos que mais está sofrendo com a pandemia do Covid-19, e certamente será um dos que mais será transformado quando tudo passar. Uma política nacional de apoio aos artistas seria fundamental, mas com o desenrolar da trama, vemos claramente que a cultura não é prioridade para o atual governo.

Resta aos artistas irem se preparando, reinventando-se, superando as dificuldades da arte e da vida.  Ser artista não é apenas uma escolha profissional. É algo bem mais profundo. É um destino de alma. Enquanto isso, o público aguarda ansioso pelo reencontro com seus artistas queridos. Encontro esse que se traduz no carinho sonoro do aplauso.

Francis Ivanovich é escritor, dramaturgo e cineasta.*

Manifestações: As ruas pertencem ao povo (Francis Ivanovich)

07/06/2020

Textão de Francis Ivanovich*

O ano de 2020 estará para sempre nos livros de História. O mundo mudou completamente neste ano. Além da pandemia, as gerações futuras vão pesquisar sobre as manifestações que explodiram. Assim como ocorreu com o emblemático maio de 1968, na França. Talvez até este texto ganhe uma olhadela rápida de algum estudante de Ciências Sociais. Arrisco dizer que as manifestações que eclodiram a partir  do assassinato de George Floyde, cometido covardemente por um policial branco, nos EUA, deram início a uma nova revolução cultural, em que o racismo não mais será tolerado e nossos irmãos negros/pretos serão respeitados na sua  dignidade de pessoa humana.

É vergonhoso para todo  branco o passado escravagista. Nós brancos, detentores de privilégios que foram erguidos sobre a morte, a dor, e a escravidão, devemos renuncia-los e ter a obrigação de sermos aliados nessa luta contra o racismo que ganha uma nova força. Devemos respeitar, cultuar, reconhecer e promover nomes como Marielli, Maria Firmina dos Reis, Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Paulina Chiziane, Zumbi dos Palmares, Martin Luther King, Malcolm X, Nelson Mandela, Frantz Omar Fanon, entre tantos que deram importante contribuição para a vida livre de todos os povos.

O racismo no Brasil é uma grande vergonha. Ele é naturalizado no olhar, no gesto, na atitude de todos nós brancos. Aprendemos a ser racistas. Não nascemos racistas. A escola do racismo é a própria estrutura social injusta, desigual, aviltante, nefasta que naturaliza a covardia, a opressão, o preconceito, a violência e o medo.

No Brasil a injustiça tem cor. Nós brancos não podemos mais pactuar com isso, sentados sobre o  privilégio de uma branquidez cínica. Somos uma só espécie, raça humana. A raça pura é uma mentira genética. Delírio doentio de pervertidos políticos. O movimento Black Lives Matter, com origem na comunidade afro-americana, que repudia a violência praticada contra as pessoas negras, está se espalhando e vai tomar o mundo.

Minha neta Nalu, que têm ascendência indígena, não nasceu racista, e talvez viva num mundo mais igual. Ela não será racista, não pactuará com o racismo, essa deformada construção subjetiva germinada no mundo branco que visa a dominação de nossos irmãos negros/pretos para o nosso próprio proveito. É ultrajante vermos nas ruas do Brasil manifestações de apoio ao racismo e ao fascismo, como vimos recentemente. 

Neste domingo, 07 de junho de 2020, começou a virada! Aconteceram as primeiras manifestações brasileiras. São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília foram praças das manifestações organizadas pela sociedade civil que visa democracia, liberdade e o fim do racismo. A mudança só está começando. As ruas pertencem ao povo. Os livros de história, ainda escritos por brancos, serão reescritos tambêm por negros. Quem sobreviver à pandemia, verá! Chega de barbárie!

*Francis Ivanovich é escritor, dramaturgo e cineasta.

Planetário 01: Terreno (Francis Ivanovich)

29/05/2020

Textão de Francis Ivanovich*

Finalmente somos terrenos. Todos nós. Não somos brasileiros, americanos, russos, chineses, etc. Somos todos do mesmo lugar: Terra. Terráqueos não! Deixo para a tradicional ficção científica esse feio adjetivo. Após a pandemia e tudo o que aconteceu, o mundo uniu-se. A Organização das Nações Unidas – ONU tornou-se de fato a administração igualitária e justa do mundo. Não mais existem fronteiras, conceito de Nação, nacionalidade. Todos somos terrenos. Precisamos juntos cuidar da água, do solo, energia, moradia, alimentos, educação, saúde, cultura. O sistema jurídico foi unificado, as leis justas para todos os cidadãos do mundo. Um novo ser humano está sendo formado. Terrenos…Foi quando despertei do sono.

Um sonho. Um lindo devaneio. Ver o mundo diferente do que se apresenta todos os dias. Viver num mundo só, onde todos somos iguais como demonstra a genética, e não esse quebra-cabeças confuso e insano. Guerras comerciais, disputas territoriais, domínio, exploração, violência, racismo, desprezo à vida humana. O poder do dinheiro sobre a vida, os sentimentos, a razão. Uma corrida sem vencedores. Vida sem sentido. O mundo está nas mãos de poucas pessoas que acumulam riqueza e poder, em detrimento de bilhões de pessoas. Como explicar a fome no mundo? Inexplicável.

Não é mais possível o mundo ser comandado por essa gente tão desumana, como as que estamos lidando atualmente. Gente com tanto poder, como o de apertar um botão e destruir o próprio planeta. Esse sistema ruiu, já se provou incapaz de promover o bem para as pessoas. Os efeitos desta pandemia são frutos de um sistema que jamais olhou cuidou da vida, somente o capital, da acumulação de riqueza, cujos proprietários  integram um grupo nada seleto de carniceiros, abutres que enxergam o mundo como um lugar fértil de exploração infinita.

Cabe a cada um de nós lutar contra isso. Repudiar toda opressão, mentira e estratégias de dominação de nossas vidas. Não podemos confiar em salvadores da pátria. A história nos prova que eles não existem. Vejo em cada criança que nasce a esperança de que um dia este mundo seja um só. Que sejamos verdadeiramente irmãos. Tenho esperanças. Enquanto isso, sonho.

*Francis Ivanovich é escritor, dramaturgo e cineasta.

Bares e cafés: Onde nascem ideias (Francis Ivanovich)

27/05/2020

*Textão de Francis Ivanovich

Bares e cafés são lugares especiais em todas as cidades do mundo. Recordo o impacto que senti ao entrar pela primeira vez no café London, em Buenos Aires. Ao sentar, me vi diante da marcante fotografia de Julio Cortázar pendurada na parede, com um cigarro apagado pendendo dos lábios.  Naquele café ele escreveu uma de suas obras, Los Prêmios.

Em Paris fiz questão de caminhar pela cidade com um bom livro nas mãos, pausando em cafés. De fato a cidade inspira e os cafés são perfeitos para sentar, pensar, escrever, ou simplesmente descansar.

No Rio os bares e botequins sobressaem aos cafés. deve ser o clima, apesar do brasileiro amar o cafezinho. Não vejo a hora de poder voltar a sentar num bar com um bom amigo ou amiga para conversarmos longamente. Nesses encontros nascem ideias, projetos, afetos e por vezes, infelizmente, desafetos. Normal, coisas da vida.

Bares e cafés, se pesquisarmos na história das artes e ciências, foram lugares importantes para grandes artistas, pensadores. Há uma série interessante na Netflix que pega carona no papo regado a café: o talk show de Jerry Seinfeld que combina café, risadas e carros de colecionadores. Vale a pena assistir, ocorrem encontros e papos interessantíssimos.

Nesses tempos de pandemia, a vida da gente mudou. Os bares e cafés estão vazios, em silêncio. Muitos desses negócios não resistirão à crise. No entanto, sabemos que quando a vacina for realidade, a vida, mesmo que transformada no que se refere ao contato humano, os bares e cafés voltarão a ser o templo dos encontros e desencontros, berço de ideias revolucionárias e medíocres, ninho de amor e desamores, lugar de poesia e vida.

Não podemos esquecer que nos bares e cafés há um personagem que merece toda a nossa admiração, os garçons, ou meseros, como se diz em espanhol. São pessoas  intrigantes. Alguns, de uma simpatia absoluta, outros, nem tanto, mas não tão menos curiosos. É um profissional que labuta como nunca e muitas vezes mora bem longe do seu local de trabalho. Quantas boas conversas já tive com eles. Alguns são inesquecíveis.

Bares e cafés sinto saudades. Agora é esperar que as coisas normalizem. Enquanto isso vou bebendo minha cerveja gelada, sozinho, em casa, ou tomando um café feito sem poesia na cafeteira elétrica comprada na internet. E claro, sem poder dizer a frase universal e ansiosa:

– Garçom, por favor!

* Francis Ivanovich é escritor, dramaturgo e cineasta.

CoronaRio (Francis Ivanovich)

20/05/2020

O tema de hoje inspirou-me a compor este poema CoronaRio, manifestação crítica sobre uma cidade complexa, contraditória, partida, que vive um grande desafio. O Rio de Janeiro, conhecido em todo o mundo, não será o mesmo depois da pandemia, temos a certeza. Nós que amamos esta cidade, vamos resistir.

CoronaRio, de Francis Ivanovich*

Rio

Rua (vai pra casa)

Vi o Rio

Vírus o Rio

Vimos a

Corona

Tua

Morro no morro
No asfalto também…

Riem do Rio

Ele Ri (primeiro)

Nós choramos

Pelo Rio que se contagia

                             Agonia

O Rio de Flores

 E dos respira-dores

Rio nostalgia

          Alegria

Fantasiado de proteína

O Rio das carnificinas

Que se bronzeva na

                D vitamina

O Rio da Epíscula mortal

               Epístola Pastoral

              E pistola também

O Rio que não se contém

                 não se entrega              

                que não morrerá

                                 jamais

Rio de Janeiro

Fagulha no palheiro

Cidade o ano inteiro

Cidade de guerreiro!

* Francis Ivanovich é jornalista, escritor, dramaturgo e cineasta.

Os alienígenas somos nós (Francis Iavnovich)

15/05/2020

Textão de Francis Ivanovich*

Quando visitei a Patagônia argentina, há pouco anos, foi um grande susto diante de tanta beleza. Senti a força da natureza como nunca. Eu que quase morri afogado quando o mar bravio me pegou sobre pedras, em Arraial do Cabo; ou quando despenquei de uma cachoeira, na Floresta da Tijuca, sempre respeitei muito a força da natureza. Medo mesmo.

Carrego em mim a suspeita de que o ser humano é o verdadeiro alienígena do planeta. Minhas suspeitas vão se confirmando. Aparentemente nós humanos não combinamos com nada o que existe sobre a Terra. Parecemos uma peça fora do quebra-cabeça. Temos uma furiosa necessidade de fabricar objetos que somente nos servem. Coisas que não se encaixam no ambiente natural.

A quantidade de lixo que produzimos diariamente é assustador. Plástico, papel, vidro, resíduos alimentares, eletrônicos, etc. Lixo, lixo. lixo. Cada vez que eu jogo fora o lixo, me pergunto para onde ele irá? Quais danos irão causar? As cenas de poluição em todos os países impressionam. O homem agride a todo o momento o planeta, na busca por riqueza e a satisfação das suas necessidades reais e imaginárias. Somos insaciáveis.

Para cada atividade econômica que lançamos um olhar mais atento, veremos claramente como o planeta paga a conta. Desde a Revolução Industrial, entre 1820 e 1840, na Inglaterra, até hoje, quanto destruímos? Quantas espécies foram extintas? Quantas florestas desapareceram? Quanto de água foi envenenada? Contabilidade da morte, sem dúvida.

Tem sido comum nesses dias de pandemia a exibição de videos mostrando supostos milagres da natureza. As pessoas ficam encantadas com o que parece ser uma regeneração do meio ambiente. Como se fosse possível em alguns meses, após mais de um século de degradação, a natureza revigorar-se porque estamos enfiados em casa. Na verdade, as pessoas estão entediadas, sentindo falta de contato com o ambiente natural. Usar a natureza. Estar à margem de um rio, na praia, caminhando pelo campo, usufruindo paisagens cuidadosamente registradas no celular, para serem exibidas nas redes sociais. A maravilhosa viagem.

Entretanto, a questão é bem mais séria. O buraco é mais embaixo.O vírus nos deu um alerta. Caso o ser humano não repense a ocupação sobre o planeta, ele nos expulsará daqui de alguma forma. Hoje somos mais de 8 bilhões de pessoas que necessitam de água, comida, moradia, remédios, roupas, eletrônicos, lazer e sonhos. Como declarou ao jornal espanhol El Pais, David Quammen, de 72 anos, o mais veterano jornalista da natureza, “nós humanos somos mais numerosos do que qualquer outro grande animal na história da Terra. E isso representa uma forma de desequilíbrio ecológico que não pode continuar para sempre. Em algum momento haverá uma correção natural.”

É certo que todos estamos com saudades do contato com a natureza, mas está mais do que na hora de cessarmos essa visão utilitária do planeta; de ele que deve estar a serviço dos nossos desejos de consumo.

A Terra não nos pertence. Somos de fato visitantes de outro mundo.

*Jornalista, dramaturgo e cineasta.

Terra (Francis Ivanovich)

11/05/2020

Textão de Francis Ivanovich*

Venho por meio desta página, inútil, agradecer-te, nesse dia das mães, àquela que é a mãe de todas as mães, também de todos os pais, esquecida e maltratada por todos nós: a Terra.

Agradeço a tua forma, o teu milagre, água, ar, céu, mar, sol, árvores, vida. Agradeço tua paciência quase infinita. No entanto, cansada, decepcionada, talvez cansada de toda gente, nos castiga agora, encerrando vidas humanas por meio de um vírus insensível.

Cansou de ver como nós tratamos toda a vida sobre a tua superfície e profundezas. A nossa infinita ingratidão, o nosso desprezo, a nossa pretensão, ambição e loucura.

Quando Gagarin te viu lá de cima, flutuando no espaço, disse que você é azul. Belíssima flor no espaço. Agora estamos aqui confinados. Na escuridão. Longe das coisas que você nos dava todos os dias, sem cobrar nada por isso.

Somos mesmos estúpidos. Pensamos que te dominávamos por inteira com toda a nossa suposta inteligência, política, capital, ciência e tecnologia. Tolos. Somos mesmo frágeis crianças pretensiosas.

Não tenho muito a dizer-te. Entendi seu recado. Infelizmente nada mudará. Ao surgir a vacina, levará pouco tempo para que tudo volte a ser o que era. A ganância, a exploração, o desejo de poder, a mentira, a loucura. Até que você se canse de nós de uma vez por todas. Como fez com os dinossauros. Será uma pena.

Agradeço tudo o que fez por mim e por meus irmãos. Peço desculpas pela nossa ingratidão. Só quero que você saiba que você é linda.

Terra, muito Obrigado.

Veja e ouça: terra, Caetano Veloso: https://www.youtube.com/watch?v=wAmtLN4PlLU

* Francis Ivanovich é jornalista, dramaturgo e cineasta.

Poema da subjetividade (Francis Ivanovich)

08/05/2020

Segundo o dicionário Aurélio: Subjetividade é o caráter do que é subjetivo; adj. Que diz respeito ao sujeito. / Que se passa no íntimo do sujeito pensante (por opos. a objetivo, que diz respeito ao objeto pensado). / Que varia de acordo com o julgamento, os sentimentos, os hábitos etc. de cada um; individual (…). Nestes termos, a subjetividade engloba todas as particularidades inerentes à condição de ser do sujeito, envolvendo as capacidades sensoriais, afetivas, imaginárias e racionais de um determinado indivíduo, em todas as suas expressões.

S = Ser

U = Único

B = Beleza

J = Janela’lma

E = Espírito

T = Terra

I = Indivíduo

V = Vida

I = Inteligência

D = Desejo

A = Amor

D = Divindade

E = EU

* Poema de Francis Ivanovich: jornalista, dramaturgo e cineasta.

O vírus do autoritarismo é mais perigoso do que o novo coronavírus (Francis Ivanovich)

05/05/2020

Em 1989 – que saudade dos anos 80, eu era feliz e não sabia – a G.R.E.S. Imperatriz Leopoldinense, numa composição de Jurandir, Niltinho Tristeza, Preto Jóia e Vicentinho, nos presenteou com o marcante samba-enredo Liberdade, Liberdade! Abra as asas sobre nós.

No primeiro refrão está o maravilhoso desejo dos compositores que, de certa forma, expressavam o sonho de um novo Brasil que saíra das garras de uma longa ditadura e acabara de adotar a nova Constituição de 1988.  Diz o refrão do samba que você poderá acessar e ouvir no link, ao final deste texto:

Liberdade, liberdade!

Abra as asas sobre nós (bis)

E que a voz da igualdade

Seja sempre a nossa voz.

O nosso genial Nelson Rodrigues dizia que “a liberdade é mais importante do que o pão”. Concordo com Nelson, sem liberdade não há pão na mesa, e certamente comeremos o pão que o diabo amassa nos porões da maldade.

Bem, o tema de hoje é liberdade. Confesso que ando bem preocupado com os recentes e sucessivos acontecimentos em Brasília. Nosso país, além de estar sofrendo com a tragédia da pandemia, está sendo obrigado a viver tempos ainda mais difíceis por uma evidente estratégia de implantação de um regime que nos tire a liberdade. Tenho me perguntado se nossa liberdade não está ameaçada por um vírus muito mais perigoso, sem exagero, do que o novo coronavírus. O vírus do autoritarismo.

O último vírus autoritário contaminou o Brasil por 20 anos, causou grandes danos ao povo brasileiro. Nenhuma pandemia durou tanto. No passado,  mesmo sob as piores condições de vida, como a da Gripe Espanhola, após a Primeira Guerra, países que não estavam sob um regime autoritário viviam em bem melhores condições do que os países que estavam acorrentados, esmagados por ditaduras.

Em pleno século 21, vemos figuras obscuras vagando entre os mortos da pandemia, com suas línguas venenosas, mãos maliciosas, e corações carregados de ódio, anunciando que estão dispostos a fazer com que o país reviva, por exemplo, o AI5, que simplesmente concedia poder ao Presidente da República para cassar mandatos de deputados federais, estaduais e vereadores; proibir manifestações populares de caráter político; suspender o direito de habeas corpus, tanto em casos de crime político, como contra a ordem econômica, segurança nacional ou economia popular. Um absurdo!

Todos e todas que prezamos pela democracia, pelo direito do livre pensamento, reunião, expressão, do ir e vir, da cidadania, devemos estar atentos e prontos para repudiar que isso aconteça. Senão, corremos o risco de, ao final da pandemia, não termos a liberdade de voltar às ruas e seguirmos com nossas vidas.

Link do samba-enredo:https://www.letras.mus.br/imperatriz-leopoldinense-rj/46373/

* Francis Ivanovich é Jornalista, dramaturgo e cineasta.

Comportamento 01: O brasileiro é um povo triste (Francis Ivanovich)

01/05/2020

             Textão de Francis Ivanovich*

O comportamento do brasileiro é um mistério. Tese para estudos comportamentais no campo da Psicologia. Desde jovem desconfiei desse brasileiro “gente boa”. Povo receptivo, sem igual, sempre alegre, muitos dizem. Principalmente quando estamos para receber turistas em determinadas épocas do ano, como o carnaval. Não tenho teorias, mas palpites, baseados na minha visão descomprometida com dados científicos, alias, não quero convencer ninguém de nada.

O Brasil registra altas taxas de homicídio, por exemplo. É um lugar no mundo onde a vida parece nada valer. O mais bizarro é que os motivos desses homicídios são muitas vezes tolos. Uma briga de bar; discussão por causa de futebol, olhar atravessado, ciúmes da parceira ou parceiro. A pessoa é capaz de tirar a vida de outra por uma tolice, mas não fica indignada com os que os políticos fazem com sua vida, da sua família e o país. Fica caladinho. Rabo entre as pernas, complexo de vira-lata, como disse bem Nelson Rodrigues.

O brasileiro vira patriota fervoroso quando a seleção brasileira disputa uma copa, mas nem se importa, não dá a mínima para questões sobre o Brasil, sobre nossa soberania, nossa democracia, aliás, é capaz até de defender a ditadura. É capaz de eleger figuras completamente sem condições de ocupar um cargo publico. Não vou dar nomes, nem precisa, basta passar os olhos em nossa história recente.

Nas ruas, no Brasil real, vemos um brasileiro agressivo, violento no trânsito, em casa, batendo em mulher, em criança, maltratando velho, mas fica caladinho numa fila vergonhosa para receber 600 Reais durante a pandemia, sendo humilhado, sem hospitais, educação, saneamento, segurança, trabalho.

Se não receber o que tem direito, volta conformado para casa, isso se tiver casa; se receber, agradece a Deus, ao padre e ao pastor. O brasileiro é mesmo um mistério. Uma personalidade oscilante, ora nas alturas, ora cabisbaixo, resignado.

Agora vemos outra bizarrice comportamental do brasileiro. Como encara a pandemia. O brasileiro parece não acreditar. Basta vermos como estão as ruas pelo país. Gente que parece estar de férias, como se nada de grave estivesse ocorrendo. Ou parece não querer acreditar, negando a realidade para não entrar em desespero. Por vezes acho que o brasileiro não tem condições emocionais para encarar os grandes problemas da vida, numa eterna fuga frente aos problemas, como um adolescente.

Uma dos meus palpites é que o brasileiro é um povo triste. Lá no fundo sente imensa dor, e finge ser esse povo tão pra cima, tão cheio de vida, escondendo sentimentos de muito sofrimento. Há povos que se rebelam, mas o brasileiro parece ter optado pelo conformismo, a fuga de si mesmo.

Mas a fase adulta parece estar chegando para o brasileiro, e o futuro começa a lhe cobrar o amadurecimento enquanto povo. Deixar a adolescência. Será que conseguiremos?

Torço que sim. Isso se os políticos deixarem.

* Francis Ivanovich é jornalista, dramaturgo e cineasta.

Saúde 03: Saudações psicólogas e psicólogos (Francis Ivanovich)

24/04/2020

              Textão de Francis Ivanovich*

Os profissionais da Saúde vêm sendo justamente homenageados em todo o mundo. Médicos e enfermeiros estão na linha de frente da batalha contra esse poderoso inimigo invisivel, literalmente dando suas vidas para salvar vidas. No entanto, há um profissional da saúde que também está atuando nesta guerra e que merece ser lembrado: as psicólogas e os psicólogos.

Na internet você encontra iniciativas importantes para quem busca ajuda psíquica. Se por um lado o vírus tem a capacidade de destruir o corpo, ele também vem alterando a mente de praticamente toda a população mundial. A necessidade do distanciamento social é a causa, e não sabemos quais serão os resultados pós-traumáticos quando ele for suspenso.

De 08 a 80 anos não seremos psiquicamente os mesmos. Transtornos como pânico, depressão, ansiedade, fobias, manias, medos estão crescendo a olhos vistos, e o resultado desse adoecimento será cobrado a cada um de nós, isto é certo.

Percebo em mim mesmo alterações comportamentais importantes. Meu sono, que nunca foi de anjo, piorou bastante, e sabemos o quanto isso é prejudicial à saúde física e mental. Ouço relatos de pessoas conhecidas que dormiam bem, e que agora rolam sobre o colchão numa coreografia por demais desagradável. A ansiedade tornou-se o travesseiros de todos nós. Os sonhos, que Freud considerava os guardiões do sono, deixaram seu posto, rebelando-se em perturbações oníricas.

O dia e a noite, que anteriormente eram como água e óleo, agora misturam-se numa dança psicodélica, e nos fazem perder a noção tempo, o que nos torna mais angustiados. O futuro, tido sempre incerto, agora assemelha-se com um dragão que nem São Jorge é capaz de combater.

Sobre as iniciativas da psicologia na internet, vale destacar o projeto Plantão Psicológico, coordenado pelas psicólogas Marcia Tassinari, Fabiana Nascimento e Ticiana Paiva. Um grupo de psicólogos voluntários especializados, disponíveis de segunda a sábado, 8h às 0h (horário de Brasília), atendendo via WhatsApp. Uma oportuna conexão afetiva para as pessoas.

Em pouco tempo o serviço gerou uma demanda de mais de duas mil pessoas, tamanha foi a procura por ajuda em tempos de pandemia. Para quem conhece um pouco sobre o trabalho dos psicólogos, deve imaginar o nível de pressão e cansaço que esses profissionais voluntários estão vivenciando, eles que tambêm estão em distanciamento social, alguns sem ver a família. Iniciativas como essas merecem toda a nossa admiração e respeito.

O distanciamento social é um desafio psicológico para todos nós. Nos EUA, por exemplo, não foi por acaso que as ONGs Muddy Paws Rescue e Best Friends Animal Society divulgaram resultado inédito em suas histórias. Os abrigos para animais ficaram praticamente vazios, após um aumento de quase dez vezes na procura por cães e gatos para adoção nas últimas duas semanas de abril. A solidão está insuportável para as pessoas. A companhia dos animais ameniza esse sofrimento. Vamos torcer para que ao final da pandemia, cães e gatos não sejam jogados no olho da rua outra vez, porque perderão a utilidade.

Esse é um sinal claro de como o psíquico vem sofrendo com o distanciamento social, processo que visa evitar que os sistemas de saúde das cidades entrem em colapso, como já ocorreu com Manaus, Norte do Brasil.

O Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro – CRPRJ divulgou em uma nota orientativa sobre medidas regulatórias extraordinárias em razão da COVID-19.

A nota afirma a necessidade da manutenção dos atendimentos a todos os beneficiários de planos de saúde, principalmente através de atendimento remoto, utilizando recursos de tecnologia da informação e da comunicação, considerando esta uma modalidade coberta pelo Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde regulado pelo Resolução Normativa nº 424/2017.

O Conselho Federal de Psicologia – CFP anunciou as ações que os profissionais da psicologia devem seguir durante a pandemia: como orientar sobre aspectos de higiene que visem a minimizar riscos de contaminação; conscientizar sobre eventuais mudanças de hábitos e possíveis implicações emocionais advindas dessas mudanças; abordar, quando necessário, implicações emocionais de uma possível quarentena e de aspectos psicológicos do isolamento, em especial de pessoas idosas; e exercer a profissão segundo os princípios do Código de Ética Profissional do Psicólogo, prestando informações precisas de modo a não causar pânico.

Trabalhando em silencio estão as psicólogas e os psicólogos brasileiros, dando importante contribuição durante a pandemia, certamente eles terão muito trabalho pela frente. A dor psíquica sempre causa grande sofrimento.

              Saudações psicólogas e psicólogos!

              * Francis Ivanovich é jornalista, dramaturgo e cineasta.

              Link Plantão Psicológico: https://www.conexaoafetiva.com.br/

Separações 01: O Lenine tá certo! (Francis Ivanovich)

22/04/2020

              Francis Ivanovich*

Com a pandemia fiquei a pensar que há muito estamos separados de alguém tão precioso. A máscara que utilizamos pode simbolizar muito bem essa separação. As palavras abafadas por detrás do pano, os cheiros tornaram-se amenos, nossa expressão facial desapareceu, os sentidos já não tocam a vida como antes.

Até as crianças estão separadas da infância. É triste ver os parques vazios, com pombos pousados nos balanços, o silêncio ensurdecedor na gangorra da distância. Brinco com minha neta Nalu pela tela do celular. Jogamos peteca, acredite. Ela atira a peteca e eu, do outro lado da tela, tento inutilmente devolver a jogada. Vamos nos adaptando e recriando a separação dolorosa.

Ao deitarmos na cama, à noite ou durante o dia, pensamos em todas as separações vivenciadas; dos que amamos, e até daqueles que víamos vez por outra, distraidamente, nas esquinas do cotidiano. Já tive saudades do pipoqueiro, do jornaleiro, e do vendedor de amendoins. Os dias perderam cara, voz, cheiro, sentidos.

Em nosso confinamento, mais que necessário, constatamos que a vida tem uma dimensão maior do que o calendário e o relógio podem oferecer. O tempo mudou dentro da gente. Estamos vivendo tempos de astronauta, viajante espacial, monje isolado na montanha. Um novo tempo interno faz nascer um olhar mais atento para alguém que vínhamos desprezando e destruindo.

Certamente você preferia estar agora caminhando livremente pelos parques ou na praia, sentindo o sol no rosto; flanar pela cidade admirado as vitrines; sentar num boteco com os amigos e falar sobre o jogo de domingo. No entanto, neste momento isto não é possível. Resta-nos o contato com os que temos afeto, através da tela fria e suja, que nossos dedos descontaminados tocam a todo instante, tal Adão desesperado tentando tocar o dedo de Deus, como na pintura de Michelangelo.

Angustiados com o futuro imprevisível, repetimos para nós mesmos que tudo vai passar, que em breve curtiremos de novo as coisas boas da vida lá fora, que de tão corriqueiras, por vezes passavam em branco. A vida em grupo, em sociedade, com sua maravilhosa composição étnica, estética e dialética, nos faz muita falta. A mesma vida que com seus dramas e alegrias se esparrama na literatura, cinema, teatro, pintura, poesia, música, psicologia, amizade, e que hoje se resume a um lançamento no Netflix da palma da mão.

Estamos separados da vida cotidiana lá fora, das viagens tão sonhadas, dessa senhora que tantas vezes foi traduzida em folhetos e pacotes turísticos da CVC. A vida travestida de todas as cores, coberta de joias da arquitetura, luz e neve, com seus contornos sensuais de montanhas, ventre de águas cristalinas, pele de árvores e florestas, voz de ventos e cachoeiras dançantes. O mundo como objeto-prêmio turístico nos meses de férias e por bom desempenho laboral.

Afinal de quem realmente estamos separados?

A resposta é simples.

Da própria vida: da mãe Terra.

A Terra oprimida pelo poder do capital; esmagada pelo consumo que só produz lixo, desigualdade, injustiças, numa total falta de conexão com a natureza. A Terra vítima das políticas mesquinhas e opressoras, que semeiam armas e fome. A Terra de poucos ricos e bilhões de pobres, explorados sem piedade.

Até que o vírus fique longe de vez das nossas células, teremos de repensar nossas ações, nossas escolhas nesta Terra. Ela está nos dando uma boa oportunidade. Ela sussurra em nossos ouvidos internos, mais atentos do que nunca, de que não é mais possível que ela seja tratada como produto de consumo fetichista.

A Terra não nos pertence, ela é também morada de cada formiga, morcego, bactéria e vírus. Não é possível pensarmos na Terra de maneira tão egoísta, como  donos de tudo o que há nela. A finitude bateu à nossa porta.

Mas a Terra é paciente, e nos propõe neste momento uma longa pausa. Nos convida ao silêncio, respiro, e reflexão. Há muito estamos separados da nossa própria casa, da nossa própria vida, que é tão rara, este planeta incrível que nos encanta e nos ampara.

É hora de realmente nos conectarmos com a Terra, caso contrario, ela terá de se livrar da espécie humana. Hoje 8 bilhões de pessoas pisam a Terra. Um desafio enorme para a natureza. Precisamos usar nossa inteligência para dar fim a essa separação absurda.

Recordo da canção de Lenine, Paciência, letra que reproduzo aqui:

 Paciência

Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
A vida não para
Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora vou na valsa
A vida tão rara

Enquanto todo mundo espera a cura do mal
E a loucura finge que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência
O mundo vai girando cada vez mais veloz
A gente espera do mundo e o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência

Será que é tempo que lhe falta pra perceber
Será que temos esse tempo pra perder
E quem quer saber
A vida é tão rara (tão rara)

Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Mesmo quando o corpo pede um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não para
A vida não para não

O Lenine tá certo! A Terra-Vida nos pede um pouco de paciência.

* Avô da Nalu, Jornalista, dramaturgo e cineasta.

Link canção Paciência: https://www.youtube.com/watch?v=4GFtjl6Gsjk

Isolamento 03: O verdadeiro isolamento social (Francis Ivanovich)

15/04/2020

              Textão de Francis Ivanovich*

O tema isolamento social remeteu-me ao trabalho da professora Geny Cobra, que em 2008 defendeu sua tese de doutorado intitulada: “Psicologia de Grupos: pesquisadores em isolamento e confinamento na Antártica”. Para quem tiver curiosidade de ler o importante trabalho, com 183 páginas, basta acessar o link, ao final deste texto.

O objetivo de Geny Cobra foi compreender os efeitos do isolamento e confinamento nos seres humanos. Para isso, a professora além de visitar a Antártica e ver de perto as condições de vida, entrevistou 20 pesquisadores das cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, que estiveram na Antártica nos anos de 2005, 2006 e 2007.

Consta na tese o resultado das entrevistas analisadas sob a luz das teorias da psicanálise de grupo e psicologia social de grupo e da técnica de análise do discurso. Para isso, foram identificados três tipos de pequenos grupos: o grupo dos acampados, o grupo dos embarcados no navio oceanográfico (NapOC) Ary Rongel, e o grupo de pesquisadores da Estação Ferraz. Cada um desses grupos apresenta característica, estrutura e cultura próprias.

Na tese, a professora e psicóloga revela: “Como terapeuta, temos o costume de observar as pessoas e o grupo em suas expressões faciais, corporais e em suas linguagens outras; este trabalho foi, portanto, um grande exercício de cientificidade”.

Não irei aqui fazer uma análise sobre o trabalho, mas acho importante termos a noção exata de que há uma diferença substancial entre estar isolado e confinado e o que estamos vivenciando durante a pandemia do Coronavirus.

Estar isolado e confinado numa região inóspita como a Antártica, em que as condições climáticas são extremas, onde a influência dos longos períodos de claridade ou escuridão afetam o corpo e a mente de forma brutal, chegando a, por exemplo, alterar o funcionamento do hormônio da tireoide, associado a Síndrome Polar T3, que provoca a mudança de humor, em nada se compara, nada mesmo, ao que estamos experimentando em nossas casas.

É preciso coragem para fazermos uma auto crítica. Há muita gente que está reclamando desse tal isolamento social, sem razão. Essa gente deveria ter vergonha de suas atitudes, algumas até irresponsáveis. A pessoa mora num confortável apartamento, possui condições de se alimentar decentemente, assistir Netflix, acesso à internet, tem água encanada, conforto, segurança, e como uma criança mimada fica reclamando sobre essa fase tão importante para não comprometer o sistema de saúde.

Há pessoas que simplesmente não respeitam o isolamento por puro egoísmo, um narcisismo infantil, uma vergonhosa falta de cidadania. O que estamos vivendo nunca foi o real isolamento e confinamento. Nem condições climáticas adversas aqui no Brasil estamos enfrentando. Aliás, o clima anda bem ameno.

Na verdade, estou me dirigindo objetivamente a uma classe privilegiada, a qual me incluo, que ainda pode se dar ao luxo de suportar esse tal isolamento social com consciência, maturidade e respeito aos profissionais de saúde.

Isolados socialmente são os que não têm casa, saneamento básico, acesso à educação, saúde, segurança e tecnologia. São milhões de brasileiros que agora esperam pelos R$ 600 Reais do Governo, isolados e confinados no esquecimento doentio. Isolados e confinados há muito tempo na miséria, no abandono, na violência por um Estado ineficiente e contaminado por um sistema político apodrecido. Para esses sim, o tal isolamento social é algo que lhes causa grande confusão.

Quando vejo a fotografia de uma banhista resistir às autoridades para que saia da praia, é revoltante. Enquanto alguns de nós precisamos de vitamina D e uma cara de pau corada, milhares de jovens brasileiros estão montados numa motocicleta ou bicicleta, enfrentando diariamente muitos perigos, inclusive de contágio pelo famigerado Covid 19, para entregar os produtos de marca, as encomendas, os remédios, o vinho em promoção, etc.

É mais do que hora de nos conscientizarmos do importante papel ao ficar em casa. Encarar esse tal isolamento social com maturidade. O verdadeiro Brasil conta com a gente. Caso contrario, assistiremos uma tragédia anunciada, ver o povo ser mais uma vez vítima de uma insuportável desigualdade social.

* jornalista, dramaturgo e cineasta.

Link para a tese de Geny Cobra: https://www.arca.fiocruz.br/handle/icict/4335

Aglomeração 03: Vale a pena (Francis Ivanovich)

13/04/2020

Textão de Francis Ivanovich*

Aglomeração, ajuntação, agrupação, misturação, multidão, reunião…

A pandemia que nos alucina, que invoca vaticínios, que nos faz penetrar estranhos mundos; nos defronta com bizarros comportamentos, nos surpreende a cada instante, na velocidade dos bits e bytes escancarados na telinha dos nossos smartphones turbinados de fake gigas.

Somos personagens de uma não ficção, nada ilusória, que nos desperta a cada amanhecer e nos aterroriza quando tentamos dormir sobre travesseiros desinfetados. Não sabemos mais por onde ir, mesmo que o desejo seja o de meter o pé na porta, arrancar as janelas, explodir os telhados, arrancar a máscara invisível de nossa falta de civilidade.

– O mal está lá fora ou aqui dentro?

Mostrar nossa face nua e crua, a bocarra tossindo desesperos e desamparos, espirros em desejos frustrados, contagiado pelas nossas impossibilidades como sementes que se deitam em solo infértil.

Ficamos pasmos com toda a loucura possível. Com esses loucos que se dizem santos, que se vestem de salvadores, que se armam de estrategistas, que se fingem estadistas; desses seres camuflados de humanidade, nos dando conselhos, nos apontando direções, eles que estão mais perdidos que a própria perdição.

Cansados, esgotados, exauridos, machucados não resistimos aos convites cínicos, as insinuações insanas de passearmos pela floresta repleta de lobos, de escalar montanhas que desabam, mergulhar em águas revoltas e envenenadas. A tentação nos é imensa, por não suportamos nossa própria companhia; não suportamos o diálogo com esse estranho ser que nos habita, que pede atenção, e que insiste em se revelar verdadeiro. Como suportar a tudo isso sem consumismo, publicidade, celebridades, e anestésicos da alma?

Gurus, sábios, cientistas, artistas, jornalistas, especialistas, infectologistas, vigaristas… Todos te proporão a salvação: Faço isso! Desfaça! Refaça! Não faça! Conselhos! Dicas! Fórmulas! Rezas! Simpatias! Meditação! Yoga! Mentalização! Mantras! Orações! Cuidados! Métodos! Estatísticas!

Percebemos então que nos sentimos sozinhos. Angustiados por não sabermos nada; desconhecermos tudo;  estranharmos a nós mesmos, o outro, o mundo e a vida. Consumidos pela ilusão das conquistas materializadas nos holerites da eurofia mensal, vemos com clareza e dureza que a mais frágil brisa, micro-criatura, é mais imponente do que o maior arranha-céu erguido sobre a terra.

Perplexos, atônitos, confusos, atormentados, encurralados como ratos, resta encolher-nos em nosso ninho e procurar encontrar um sentido para a própria vida. Ir ao encontro da coragem de viver e nos perguntarmos, sinceramente, se o caminho  vale a pena.

Após uma pausa, nossa voz interior nos diz suavemente:

– Vale!

* Jornalista, dramaturgo e cineasta.

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https://textao.webnode.com/l/saude-03-psicologas-e-psicologos/

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http://www.conexaojornalismo.com.br/colunas/cultura/radionovela/confinados-uma-novela-de-francis-ivanovich-28-52239

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http://www.conexaojornalismo.com.br/colunas/cultura/radionovela/confinados–uma-novela-de-francis-ivanovich-28-52249

http://www.conexaojornalismo.com.br/colunas/cultura/radionovela

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http://www.conexaojornalismo.com.br/colunas/cultura/radionovela/sitenovela-fotossintese-ultimo-capitulo-por-francis-ivanovich-28-52139