A primeira chuva de verão…

Por Francis Ivanovich:

Os tambores deste céu plúmbeo, das 16 horas, neste 12 de dezembro de 2021, no Rio de Janeiro, rufam pela tarde muito quente, neste penúltimo domingo de primavera que vai se despedindo para sempre.

A tarde tonou-se noite, a chuva forte desabou com o seu som e imagem de para-brisa de automóvel que se espatifa. De repente, um estrondo! Um raio caiu aqui perto, a energia oscilou por um instante, é o verão que se aproxima.

o coro contínuo da chuva, como grãos que deslizam dentro de sacas de juta, no ritmo do vento forte, como um maestro nervoso a agitar sua batuta de brisas. O primeiro fim de tarde típico do verão neste Rio irmão do Sol. Logo, os bueiros estarão borbulhando, as ratazanas estarão desesperadas, as ruas inundadas, as velhas árvores caídas e mortas, as sirenes de alerta disparadas nas comunidades que sobrevivem nas ribanceiras.

O verão do Rio que tanto o carioca ama e teme, estação que nos alegra e nos deixa tensos, por causa dessas tempestades passageiras, paridas nos encontros furtivos das massas quentes com frentes frias. Nos céus os raios rabiscam imagens tortuosas, clareando as montanhas da cidade. Juro que vi um Merlin desenhado sobre a enseada de Botafogo.

A essa hora, o prefeito da cidade, em casa, já recebeu os primeiros informes sobre os riscos, estragos, prejuízos urbanos. Pelos bares da cidade, os cariocas bebem cerveja, e petiscam confidências, olhando as ruas que submergem sob a tormenta estupidamente esperada. Entre o receio e a alegria, todos sabem que esta é tormenta inaugural do próximo verão.

Enquanto escrevo, a velha amendoeira, em minha janela, dança agitada sob o aguaceiro, equilibrando-se em sua perna de 80 anos. Os fios elétricos, ainda persistentes em muitas ruas e alamedas, parecem corda bamba de nossos sonhos desequilibrados e encharcados de esperança.

A tempestade impulsiva, aparentemente furiosa, baixa-nos a temperatura, também dos termômetros, sendo possível respirar melhor nesses dias de surto da gripe Influenza na cidade.

A chuva vai cedendo, sua voz vai se tornar amena, e as buzinas dos carros, que indicam engarrafamento no domingo, competem com outro trovão que explodiu sobre o morro Dois Irmãos.

Que beleza esta chuvarada que transborda em nós, e nos entrega de bandeja o sol flamejante do verão que vem chegando. Paro de escrever, preciso ouvir “Águas de Março”, com Tom Jobim e Elis Regina.

Choro. (Por águas passadas?)

Adeus primavera de 2021.

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