O meu novo amigo Bolaño

Por Francis Ivanovich:

Tenho um novo amigo. Como descreve-lo? Tem 622 páginas: “Os detetives selvagens“, do escritor chileno Roberto Bolaño (Santiago do Chile, 28 de abril de 1953 — Barcelona, 15 de julho de 2003).

Não confundam esse Roberto chileno com o ator mexicano que deu vida ao personagem da TV, Chaves. O ator também se chamava Roberto Bolaños, mas repare que o seu Bolaños tem um “s” no final. Feita a distinção, explico porque o Bolaño chileno é o meu novo amigo, ele que é um gigante da literatura chilena e latinoamericana.

A primeira vez que tive conhecimento da associação livro-amizade, foi na adolescência. Através de versos do poeta e músico indiano Rabíndranáth Thákhur (1861 – 1941), prêmio Nobel da literatura em 1913.

Diz o poeta indiano:

Um livro aberto é um cérebro que fala;
Fechado, um amigo que espera;
Esquecido, uma alma que perdoa;
Destruído, um cora
ção que chora.

Há frases que nos marcam para sempre. Um livro Fechado, um amigo que espera, está gravada no meu corpo e na minha alma. Seja em casa, numa biblioteca ou numa livraria, basta eu olhar para um livro fechado e me vem à cabeça esta advertência: um amigo que espera.

Vejo cada livro como amigo aguardando a minha visita em sua casa. Quando abro a porta, chego à sala de visita, ele me convida a sentar-me à mesa, me serve um café, iniciamos longa e rica conversa. É impossível sentir-me só ao estar acompanhado de um bom amigo.

Roberto Bolaño é o meu novo amigo. O levo para todo o lado, nesses dias. É um amigo extraordinário, divertido, cheio de ideias, que tem trazido à tona o jovem que fui nos anos 80. O personagem central de “Os detetives selvagens” é o jovem poeta Garcia Madero que frequenta uma oficina literária.

Como não recordar a oficina literária que frequentei na universidade Gama Filho, entre 1984 e 1986, coordenada pela minha eterna professora Marina Paranhos? Hoje somos grandes amigos. Em 2015, tive o privilégio de escrever uma das orelhas do seu “Outrora Agora”, excelente poesia que homenageia São Luís do Maranhão, sua terra natal, dividindo apresentação com a cantora também maranhense Alcione.

O amigo Bolaño me pegou pela mão e me levou outra vez à sala da oficina da professora Marina, onde jovens poetas do subúrbio carioca sonhavam letras. O personagem de Bolaño sou eu. Todinho. Magrelo, atrevido, desafiador, com fama de rebelde.

Somente um bom amigo nos convida a uma inesquecível viagem. Ele é capaz de reacender em nosso coração as emoções, as lembranças de amigos queridos, como o meu inseparável amigo e poeta Maurício da Costa Batista, (neste link um blog que criei com sua maravilhosa poesia) que há 10 anos deixou este mundo. Amizade é coisa séria. Infelizmente, nem todos sabem preservar um bom amigo.

Quer uma dica? Olhe a estante da casa de alguém. Se nela há vida, amigos que são abertos constantemente, certamente essa casa e pessoa sabem o valor da amizade. Por outro lado, se esta estante é apenas uma vitrine repleta de livros, largados às traças do esquecimento, tenha a certeza, ali está uma casa e alguém que troca de amigos com quem troca de aparelho celular.

Um fato curioso tenho notado. Se você está com um livro aberto nas mão, é um alienígena. Basta olhar à sua volta, lá estão todos com a cara enfiada nas telas dos celulares. Faça a experiência. O transporte público ou uma praça são perfeitos para o teste extraterrestre.

O livro é uma das maiores invenções na história da humanidade. Ele jamais desaparecerá da Terra. Podem inventar aparelhos mil, ele é imbatível em praticidade e utilidade. Não necessita de bateria, carregador, energia e ninguém tem interesse em roubá-lo de você. Outra capacidade do livro. Provocar o diálogo humano: “Que livro você está lendo?”; já um aparelho celular te isola do ser humano que está ao seu lado. É comum vermos famílias, na mesa de um restaurante, que nem se olham.

Amanhã irei ao Centro resolver burocracias. Levarei meu amigo Bolaño comigo. Quando eu estiver livre dos fiscais, irei tomar um café numa livraria que me sinto bem. Eu e Bolaño conversaremos sem nos importar com o caos que nos cerca. Ele me revelará novos segredos, despertará novas lembranças, me fará rir e pensar, e me sentirei mais humano neste mundo de poucos amigos de carne e osso.

Publicado por Frankfurt Produções

Produtora audiovisual - Cinema, TV, internet, shows, Cursos, produtora dirigida por Francis Ivanovich. cineasta escritor.

%d blogueiros gostam disto: