Fernanda na ABL

por Francis Ivanovich:

Imagem retirada da Internet.

Algumas pessoas e amigos me perguntam o que eu penso sobre a atriz Fernanda Montenegro ter sido eleita para Academia Brasileira de Letras – ABL. Pensei muito se iria escrever o que penso ou não, analisei e decidi dar liberdade à minha modesta pena, afinal, quem está na chuva de letras é para se molhar, parodio o famoso e popular ditado.

A primeira vez que vi Fernanda Montenegro pessoalmente, não foi no palco. Claro que ela não se lembra daquele rapaz magrelo. Foi no Centro da Cidade, na sede da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais – SBAT, sentada ao lado do meu ídolo teatral, o gigante ator Rubens Corrêa, falecido em 1996.

Eram anos 1980, se não me engano, fui à SBAT registrar um texto teatral, eu que iniciava nesse árduo ofício de escrever. Confesso que não dei bola para a grande atriz, estava fascinado de estar diante do Rubens, para mim um dos maiores atores de todos os tempos no teatro brasileiro.

Fernanda já era Fernanda, um talento inquestionável. Uma gigante como pessoa e artista. Hoje quase um mito. Não há o que questionar sobre Fernanda Montenegro, não há. No entanto, acho que seu ingresso na Academia Brasileira de Letras, criada por Machado de Assis, não tem a ver.

Eu soube que ela iria ser indicada para a ABL por um grande amigo e artista, o dramaturgo, escritor e músico Arnaldo Luís Miranda, enquanto tomávamos chocolate na Casa Suíça, em Nova Friburgo. Ao ouvir sobre a indicação, através do Arnaldo, fiquei surpreso e imediatamente me opus. Disse que a Fernanda não precisava dessa indicação.

Posso estar equivocado? Sim, posso estar, mas tentarei expor meu ponto de vista enquanto um modestíssimo autor que se dedica a escrever a alguns anos, seja no jornalismo, teatro, cinema, novela ou poesia de gaveta.

Ser escritor talvez seja na arte o mais solitário e mal pago ofício. Para se tornar um escritor de verdade é quase necessário renegar a própria vida pessoal. Sem exagero. São horas e horas diante da folha em branco, numa solidão absurda, um ato próximo à esquizofrenia e ao desespero.

Respeito, mas nunca engoli essa história de alguém relatar que sente grande prazer em escrever. Escrever é uma tarefa dolorosa, por vezes torturante, que consome muita energia e tempo de nossas vidas. A literatura parece uma entidade dentro de você. Ela fala com você o tempo todo. O grande prazer vem no leitor – ter alguns já é uma vitória – quando nosso texto consegue se comunicar com ele, transforma-lo de alguma forma. Muitas vezes o leitor nos revela o que nem sabemos da nossa obra. Isso é formidável. Aí sim é um prazer indescritível.

Além desse trabalho ser penoso e solitário, é muito mal remunerado. As editoras te dão 10% do preço de capa. É preciso vender muito para se ganhar algum dinheiro. Não somente no Brasil, mas na maior parte do mundo. Fazer sucesso com a literatura é praticamente acertar na mega sena. Não basta talento, bom texto, é necessário muita sorte.

O escritor é uma espécie de amante da língua. Ele namora com ela todos os dias. E também há brigas ferozes. O silêncio entre esses amantes pode durar anos, de repente, reencontro. Nasce a obra.

A ABL surgiu dentro desse espírito, como nos mostram seus registros iniciais que datam da sua criação, em 20 de julho de 1897. Instituição literária brasileira criada pelos escritores Machado de AssisLúcio de MendonçaInglês de SousaOlavo BilacAfonso CelsoGraça AranhaMedeiros e AlbuquerqueJoaquim NabucoTeixeira de MeloVisconde de Taunay e Ruy Barbosa. O seu objetivo é o cultivo da língua portuguesa e da literatura, e trabalha para a unificação do idioma do português brasileiro.

Ao meu ver está muito claro que a ABL é um lugar para escritores, para os que se dedicam a trabalhar sobre sua principal ferramenta, a língua, produzindo obras que vão repercutir na cultura brasileira.

Em 2018 ocorreu um caso emblemático. Dois candidatos disputavam uma cadeira. Conceição Evaristo e Cacá Diegues. O grande cineasta foi o escolhido. Conceição Evaristo, formada em Letras, com mestrado e doutorado, professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), poderia ter sido a primeira mulher negra a ocupar uma cadeira na instituição.

Cacá para mim é um cineasta dos mais importantes da história do cinema brasileiro, reconhecido internacionalmente, mas não é um escritor dedicado exclusivamente a este ofício. Eu elegeria Conceição. Na época da eleição, correu que a campanha da escritora não foi bem conduzida. Será?

Até compreendo essas eleições, sob o aspecto de incorporar representantes significativos de outras manifestações artísticas que também colaboram para valorizar nossa língua, como é o caso da nossa grande dama do teatro brasileiro, Fernanda Montenegro, no entanto, creio eu, foge aos objetivos fundadores da ABL, que é valorizar nossos autores e nossa língua tão linda. Serei um conservador?

Tenho sérias dúvida se Machado, Bilac e tantos geniais escritores topariam esse caminho. Posso estar equivocado em minha análise, assumo que não sei nada neste mundo, mas tenho a sensação de que nossos escritores deveriam encontrar na ABL um real espaço de acolhimento, refrigério para os que se dedicam a este maravilhoso ofício que, por vezes, tem a capacidade de nos levar ao inferno da sobrevivência. Escrever não é brincadeira não.

Lembro nomes que não ingressaram na ABL: Lima Barreto, Mário de Andrade, Clarice Lispector e tantos outros.

Um grande beijo Dona Fernanda, no palco e nas telas a senhora é demais!

Ah! para terminar, quero ver o Chico na Academia, além de genial músico, vem se dedicando à Literatura, está mais do que na hora da ABL ver a banda passar!

Publicado por Frankfurt Produções

Produtora audiovisual - Cinema, TV, internet, shows, Cursos, produtora dirigida por Francis Ivanovich. cineasta escritor.

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