A vida simples das pessoas

Por Francis Ivanovich

Sentado na poltrona 11, neste ônibus que vai em direção a Serra, com o sol pegando carona em meu colo, ao ultrapassar o vidro temperado da janela, o veículo numa velocidade moderada, quando lá fora observo as múltiplas paisagens que se sucedem, matizes e instantes, penso na vida simples das pessoas.

O pensamento é passageiro, esse bilhete de viagem carimbado por lembranças e carregado de bagagens, por vezes acima do peso, que me conduz ao itinetário cotidiano dessa gente humilde que habita as marges das rodovias.

Um homem sobe o morro de barro, empurrando uma velha bicicleta, sob o sol do meio-dia. Onde irá esse homem que não tenho tempo para vislumbrar sua fisionomia? Talvez vá para sua casa operária, onde lhe aguarda a companheira que cozinhou o feijão com arroz e um ovo estrelado. Ou, quem sabe, está sem trabalho e amor, embriagado e desgostoso com a vida, vai para o quarto deitar na cama solitária, sob o olhar do cão vira-lata amigo.

O ônibus avança na esteira de asfalto revelando na câmera das janelas cenas de um país tão pobre. As fábricas que fecharam as portas, os vendedores de laranja, os operários que tapam buracos, as crianças descalças que soltam pipas sobre a estrada; os cães que também existem, como nos advertiu Pessoa, os ferros-velhos e os caminhões que transportam frangos e hortaliças.

A vida simples dessa gente trabalhadora às margens desta veia asfaltada, percorrida por gente que sonha para todos os destinos. Penso que de fato sou um viajante clandestino, que passa seus dias pensando demais nas malas extraviadas.

Uma casa simples pintada de rosa, sombreada por uma mangueira, me captura neste momento. Na varanda uma senhora de óculo vigia a rodovia. Pensará ela na vida como quem perde a hora da partida? Ou simplesmente aguarda a neta chegar da escola, abrindo o portão da casa?

O ônibus avança e sigo escrevendo com o polegar esse texto, no teclado do celular, como um um pássaro que bica o seu ninho apertado. Logo estará o texto viajando por essa estrada virtual, sendo lido por gente simples que só deseja terminar a obra em sua casa, encerrar o expediente em sua loja de pijamas, concluir o capítulo novo da tese de doutorado, pagar a conta de luz vencida, fazer o exame que o médico recomendou. Encerrar em paz a viagem do dia.

A vida simples das pessoas à bordo deste mundo tão veloz, quase sem destino, logo cessará nas janelas do ônibus.

Finalmente chego à Serra.

Publicado por Frankfurt Produções

Produtora audiovisual - Cinema, TV, internet, shows, Cursos, produtora dirigida por Francis Ivanovich. cineasta escritor.

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