Os Derradeiros Dias do Poeta Josef Sant (10)

Os Derradeiros Dias do Poeta Josef Sant (10)

O encontro com Lucinda o obrigava ir ao Rio. Não havia desejo de voltar à cidade, mas revê-la depois de 10 anos não era um compromisso qualquer. No portão esperava o amigo e advogado Barbosa chegar. Estava ansioso. Fizera a barba, colocara uma roupa mais apresentável, ele que era pouco vaidoso. Marcaram encontro num restaurante reservado em Santa Teresa. Foi nesse lugar a última vez que se viram. Debaixo do braço o envelope com as cartas e alguns poemas que ele escrevera para ela. Queria entregar-lhe, não desejava que após sua morte o conteúdo fosse revelado. Sabia que seria um prato cheio para a editora, mesmo que colocasse o editor numa situação desconfortável. O dinheiro sempre fala mais alto, os homens são capazes de sacrificar a honra e as virtudes por ele.

Pensando desta maneira, ouviu o trote de um cavalo se aproximando, sabia quem era. O velho Antônio Caveira parou próximo a ele, Josef Sant sorriu, e sem nada dizer Caveira sacou um revólver e descarregou-o no peito de Josef Sant. O poeta foi jogado para traz, batendo a cabeça contra o muro. O pistoleiro calmamente manobrou o Fagulha e foi embora como se nada de extraordinário tivesse acontecido.

No hospital a imprensa e curiosos estavam aglomerados na entrada. Na sala de cirurgia os médicos lutavam para salvar o poeta que havia incrivelmente resistido às 4 balas. Sagrara muito, mas nenhum órgão vital havia sido atingido. Na sala de espera estavam o Dr. Barbosa, o assessor de imprensa ao telefone, Maria, que não parava de derramar lágrimas, amparada por seu marido calado; Lucinda acompanhada pelo marido, o editor Silveira, a ex-mulher de Josef Sant, Olga que estranhamente apareceu no hospital, ela que sempre prezara por seu anonimato enquanto vivera com ele durante 25 anos de um casamento incomum. Olga olhou para Lucinda algumas vezes, demonstrando antipatia. Lucinda não ousava encara-la.

Finalmente a cirurgia acabara, Josef Sant resistira e as próximas 24 horas seriam cruciais. – Foi surpreendente como ele aguentou, mesmo doente. Há esperanças, as próximas horas teremos um panorama do quer pode ocorrer. – Disse o médico com o ar exausto.

Lucinda instintivamente soltou um “Graças!”, Olga deu-lhe um tapa no rosto e foi embora sem nada dizer. A cena paralisou a todos, até Maria parou de chorar. O marido que nada falava, emitiu um “eita!” de surpresa. Barbosa olhou para Silveira, o editor baixou a cabeça. O assessor de Imprensa com a assessoria do hospital emitiam nota oficial para a mídia.

Continua…

Publicado por Francis Ivanovich

Cineasta cineasta escritor.

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