Os Derradeiros Dias do Poeta Josef Sant (8)

Atrás da casa havia a garagem que mais parecia um depósito de coisas sem utilidade. O marido de Maria, que o Poeta Josef Sant sempre trocava o nome, atendeu-lhe o pedido de abri-la. A luz do sol iluminou o ambiente empoeirado e cheirando a mofo. Tīmidamente o homem aconselhou-o a ficar do lado de fora.

– Euclides…

– Aristides.

O poeta Josef Sant suspeitava que era por causa de Euclides da Cunha, escritor que admirava, que insistia em rebatizar o calado Aristides.

Dentro da garagem estava o velho fusca 73 vermelho coberto por uma capa plástica transparente. O carro era uma relíquia deixada por seu pai, que ele raramente oferecia asfalto. Aristides retirou a capa com cuidado para não fazer subir a poeira, entrou no carro e o ligou, após uma explosão do escapamento. Numa ré segura, manobrou o fusca vermelho, estacionando numa clareira na lateral da casa.

O poeta Josef Sant não gostava de dirigir, mas sentiu uma vontade danada de explorar a serra dentro do veīculo que encarava bem as estradas com lama e buraco.

– Aristides, por favor, abasteça e lhe dê um banho no posto.

– Pode deixar.

– Tome 200 reais.

O fusca vermelho pegou a estrada na direção do centro da cidade.

Na cozinha Maria preparava o almoço, o cheiro do alho e do louro brigavam no ar. Ele sentou-se numa cadeira perto da janela e viu batatas a serem descascadas.

– Maria, quantos anos vive com o Euclides… Aristides?!, perguntou Josef Sant arrancando uma lasca de uma gorda batata.

– 40 anos.

– Puxa vida. Qual o segredo?

– Não tem segredo, ė sorte e vontade de Deus.

Ele ouviu a resposta aparentemente simplória e não pode discordar da sorte que ela colocara antes do Deus que acreditava.

– Eu não tive muita sorte com casamento…

Maria o interrompeu com algo que ele jamais imaginaria que ela dissesse um dia, nas fuças:

– O senhor ė homem complicado, que pensa demais! Mulher não aguenta muito tempo homens como o senhor. A vida não é tranquila.

Disse Maria refogando o feijão, enquanto o alho reclamava calor.

O Poeta Josef Sant ficou paralisado. Não conseguia achar argumento, só teve tempo de soltar um “merda!”

– O que foi?, Perguntou Maria.

– Cortei o dedo.

Continua…

Publicado por Francis Ivanovich

Cineasta cineasta escritor.

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