Os Derradeiros Dias do Poeta Josef Sant (7)

O poeta Josef Sant acordou mal disposto. Quando o corpo severamente reclama nossa alma se manifesta. Do fundo do ser emergem reflexões sobre o sentido de tudo isto e o afeto que nos cabe. Há semanas o telefone celular estava desligado, ele que não utilizava aplicativos de conversa e vídeo. Quem tinha seu nūmero, e eram poucos, sabia que para falar com ele era à moda antiga.

Ligou o aparelho e os nūmeros que o chamaram foram exibidos na tela. Um dos nūmeros chamou-lhe a atenção. Observou o dia e a hora e refletiu se retornaria ou não. Apertou a tecla que exibia um telefone em verde.

– Oi.

– Como está?

– Dentro do possīvel, bem.

– Liguei pra saber. Que bom que está bem.

– As crianças como estão?

– Bem. Ana Luisa está feliz com a queda do dente de leite. Laura ficou resfriada. E o José entrou pra escolinha de futebol do Flamengo.

– Que ótimo. Mande um beijo para elas. E diga ao José que preferia que ele tivesse ido para o Fluminense.

– Digo.

– Bem, é isso. Obrigado por ligar…

A ligação foi encerrada com a frieza costumeira. Olhando o quintal através da janela do pequeno escritório, lembrou-se da filha pequena que agora tinha três filhos. Não compreende até hoje a distância que se estabeleceu entre eles, uma relação emperrada e marcada por sútil indiferença, principalmente por parte dela, Eliza.

Um sentimento de fracasso paterno aparecia em seu íntimo de vez em quando, mas sabia que não adiantava forçar nada. Na vida é corriqueiro esse desencontro.

Há pessoas que você divide o mesmo teto por anos e são eternos estranhos; e por vezes você está caminhando na rua e esbarra com alguém que vai estar verdadeiranente em sua vida. Nasce uma amizade, um amor que vai dar bons frutos.

A filha Eliza era uma estranha para ele e o poeta Josef Sant suspeitava que ela nem sentisse tanto o dia da sua morte.

Retirou a bateria do celular.

Continua…

Publicado por Francis Ivanovich

Cineasta cineasta escritor.

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