Os Derradeiros Dias do Poeta Josef Sant (5)

Mesmo sentindo-se cansado, as pernas reticentes, uma necessidade de caminhar o empurrava para a estrada que deslisava em barro diante do portão da casa. Um sol tímido, entre nuvens de neve e chumbo, dourava as bananeiras.

– Maria, vou caminhar um pouco.

– Vou com você, deixa eu calçar minha sandália…

– Não precisa. Quero caminhar sozinho.

– Entao não vá além da ponte, qualquer coisa me grita.

O poeta Josef Sant nunca vira Maria tão preocupada. A mulher deve achar que já estou moribundo, pensou ele, abrindo o portão, botando os pés no caminho.

O que ele mais gostava naquelas caminhadas era cruzar com a gente simples do lugar que não se importava com a fama do poeta. Havia alma ali que o chamava de Seu Zé dos livros, e nada mais.

A estrada estava úmida de chuva recente, o cheiro dos pinheiros tornava o ar saboroso. Os bem-te-vis em alvoroço, as borboletas em acrobacias agitadas. Essa presença natural que nos esmaga, nos colocando em nosso insignifcante lugar no mundo.

As casas que ali foram erguidas datam dos anos pré-ditadura, quando uma gente abastada via na serra o lugar perfeito para ficar longe do povo. Nessa aparente paz, há um conservadorismo de pedra que grita e contrasta com a gentileza e a bondade dos que travalham a terra.

Caminhou uns 200 metros e realmente se sentia cansado. Respirou fundo, devagar, buscando um ritmo menos intenso para o corpo que ja experimentava os efeitos da doença. Foi quando ao chegar numa curva, viu um velho caído na estrada. Perto do homem havia um cavalo com cela comendo capim.

Aproximou-se apressado, o homem respirava, os olhos semi-abertos mirando o céu. Ajudou o homem a sentar-se, a recompor-se. Pegou seu chapéu que rolara no barro, e ao entregar ao velho, ouviu um trovão anunciando mau tempo.

Ajudou o velho a montar o cavalo, e o velho o convidou a tambėm subir no lombo do animal. Ele obedeceu. Cavalgaram pela estrada em silêncio, bem além da ponte. Chegaram numa casa pequena, bem afastada, iluminada a querosene. A chuva desabou sobre a serra. O velho fez café no fogo que estalava na lenha. Ficaram em silêncio, enquanto a chuva cantava sua fúria.

Maria olhando a chuva, estava desesperada, onde estaria o poeta Josef Sant?

Continua…

Publicado por Francis Ivanovich

Cineasta cineasta escritor.

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