Os Derradeiros Dias do Poeta Josef Sant (4)

Ouviu o portão sendo aberto, sabia que era a Maria chegando. O poeta admirava aquela mulher tão batalhadora que morava com o marido na região. Era ela quem cuidava da casa e dele quando ali estava, há mais de 10 anos. Ela se aproximou diferente, sem o sorriso largo no rosto sincero.

– Vi no Jornal Nacional que o senhor tá doente, é verdade?

– Estou.

Ela o abraçou como se ele fosse um filho; chorou e prometeu levar seu nome à igreja de milagres que frequentava. Ela só não gostava nele dessa história de ser ateu. Não combinava com ele.

– Preciso escrever. Você me faz aquela galinha a molho pardo pro almoço?

– Faço. Quer café?

– Sim. Vou ficar debaixo da mangueira, escrevendo.

Sentou-se sob a árvore carregada de manga-espada. O cheiro da fruta perfumava o quintal. Um canarinho bicava a espada amarela no chão verde, enquanto as formigas trabalhavam como sempre. Lembrou-se do sonho com os alienígenas que não quiseram cura-lo e surgiu a primeira frase do poema a ser trabalhada:

” A vida é um disco voador suspenso no ar de tão irreal em sentido…”

Maria se aproximou trazendo o café fresco. O odor misturou-se ao das mangas. Ele bebeu com indescritível prazer. Maria deu um pequeno grito.

– Meu Deus! Olha o que está no telhado!

Um enorme balão todo prateado de São João estava deitado sobre o telhado da casa, por sorte não ocorrera um incêndio.

O poeta Josef Sant bebeu o café e escreveu a segunda frase:

” Cai cai coração sobre o teto da minha razão…”

Continua…

Publicado por Francis Ivanovich

Cineasta cineasta escritor.

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