Os Derradeiros Dias do Poeta Josef Sant (1)

Por Francis Ivanovich

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Naquela manhã de outono, olhando pela janela do seu apartamento, o poeta Josef Sant decidiu recusar a homenagem do presidente. O poeta ganhou fama ainda jovem, ao combater a ditadura com versos potentes que o obrigaram a refugiar-se no Chile. Hoje, aos 60 anos, é um dos poetas mais amados do país e da América Latina.  A homenagem do presidente era armadilha de marketing. Ele sabia que a recusa de dar seu nome à biblioteca que seria construída em Brasília, causaria uma ruptura com diversos setores. Ele que sempre foi discreto, só se manifestando através da sua poesia de inegável força e beleza. Telefonou ao secretário do presidente comunicando sua decisão. O homem, incrédulo do outro lado da linha, ficou em silêncio por um tempo antes de perguntar-lhe se tinha certeza da recusa. Sim. Ouviu o telefone ser desligado.

Sentiu alívio e ao mesmo tempo angústia. Sabia que não teria paz por um bom tempo, que a imprensa iria encher seu saco, em breve. Calçou o par de tênis que ganhara de presente de um dos netos e foi caminhar pela Glória. Foi pisar na calçada e foi cercado por um batalhão de repórteres em frente à portaria. Qual a razão para o senhor ter recusado a homenagem? Nada tenho a dizer, bom dia. Tentou caminhar, mas não foi possível. Os amigos do bairro o ajudaram a afastar-se dos jornalistas; acabou sentado dentro do bar da esquina, bebendo média com pão e manteiga. Sentado diante dele, o Henrique, o agitador cultural do bairro. Eles se gostavam. Não sei como você aguenta. Disse o Henrique bebendo o cafezinho. É uma praga. Sabe, Henrique, se eu pudesse voltar no tempo eu tentaria ter uma vida simples, anônima, funcionário público de quinto escalão. Mas o amigo tem uma vida invejável, a vida de homem comum é muito dura. Eu sei, Henrique, mas como é bom andar por aí sem ser incomodado. Você se sente um objeto de decoração, uma coisa que é usada, sei lá. Parabéns por ter recusado a homenagem, esse governo não presta. Se faz passar por popular, mas é um governo da elite paulista, para essa gente o Brasil é São Paulo.

A clareza do Henrique impressionava ao poeta Josef Sant, ele na verdade admirava aquele homem que sempre estava envolvido com a vida do bairro, promovendo a cultura, atuando na vida das pessoas de maneira concreta, de verdade. O poeta Josef Sant se sentia inútil por vezes, mesmo que sua voz tivesse algum peso quando se manifestava, principalmente quando escrevia. O que fiz na vida? Escrevi uns versos bem elaborados, o que isso de fato tem de importante? Ele não compreendia o porquê desses sentimentos quase juvenis o assaltando nos últimos tempos.  Quando caminhava pela cidade, reparando na luta das pessoas para sobreviver, levar comida para casa, sentia vergonha da vida que tivera. Sentia-se um príncipe que só tivera sorte pela frente. Uma espécie de culpa o atormentava, e quase não compreendia o carinho que lhe dedicavam as pessoas. Ao beber o último gole da média, sentiu algo estranho dentro de si, tudo à volta escureceu, tentou levantar-se, mas desmaiou para espanto do Henrique.

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Os Derradeiros Dias do Poeta Josef Sant (2)

O médico disse-lhe com o máximo de cuidado que ele tinha de seis meses a um ano de vida. O linfona era bem agressivo. Despediram-se com um aperto de mão formal; saiu escondido do hospital, pelos fundos, onde o carro do amigo e advogado, o Dr. Barbosa, o aguardava. A imprensa estava na entrada principal há uma semana, desde que ele havia sido internado, desde o desmaio.

– Barbosa, você organiza tudo o que for preciso, ok?

– Claro. – Respondeu o amigo advogado, acendendo um cigarro e pondo o carro em movimento.

Ao ver o cigarro na boca do amigo, o poeta Josef Sant lembrou-se das diversas vezes que alertara-lhe que o tabaco iria mata-lo um dia; o Dr. Barbosa consumia até três carteiras de cigarros por dia, totalizando em um ano o absurdo número de 21.900 cigarros.

Riu de si mesmo o poeta e pediu para ir para seu esconderijo em Teresópolis, onde possuia uma pequena casa que nem sua família sabia a existência. Somente Barbosa conhecia o lugar. Quando ele se escondia na casa, sua assessoria de imprensa inventava que tinha ido para Portugal, descansar.

A viagem até Teresópolis durou duas horas. Ao chegar à casa, sentou-se na sua cadeira favorita, na varanda, e ficou observando os pássaros nas árvores e na grama e como o jardim estava cheio de vida.

Em silêncio os amigos ficaram um bom tempo, até que o Dr. Barbosa chorou baixinho, quase envergonhado, com um cigarro apagado entre os dedos, para espanto do poeta Josef Sant.

– Por favor, Barbosa, o que é isto?

– Não é nada, meu amigo! É que decidi parar de fumar. Vou sentir uma falta danada do cigarro. – Disse, atirando longe o cigarro.

O poeta Josef Sant sorriu, os pássaros voaram.

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Os Derradeiros Dias do Poeta Josef Sant (3)

Despertou com uma forte luz branca sobre a casa. Ao sair para o quintal, e fazia muito frio, o poeta Josef Sant ficou maravilhado com o disco prateado flutuando silenciosamente sobre o telhado.

Seu corpo foi sugado com suavidade para dentro da nave. Em pouco tempo, estava deitado e à sua volta seres parecidos com humanos o estudavam com curiosidade.

– Vejam como ele está doente.

Um dos seres falou; enquanto uma espécie de braço mecânico deslizava sobre cada parte do seu corpo.

– Uma doença tão simples e eles ainda não conseguem cura-lo. Disse o segundo ser.

– Ainda são atrasados e violentos. – Completou um terceiro.

– Vamos cura-lo deste simples linfoma? -Perguntou o quarto ser.

– Não podemos interferir. Apenas estuda-los para compreender nosso passado distante. – Determinou o primeiro ser, que parecia ser o líder da nave.

O poeta foi devolvido à casa. Ao despertar, não sabia se tinha tido um sonho ou havia sido abduzido. O corpo todo molhado de suor. O desconforto do frio. Trocou de roupa, bebeu chá, e tentou dormir com a esperança de que os alienígenas mudassem de ideia e o livrassem da doença.

– O sobrenatural é a nossa última chance, disse para si, afundando a cabeça no travesseiro. Dormiu.

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Os Derradeiros Dias do Poeta Josef Sant (4)

Ouviu o portão sendo aberto, sabia que era a Maria chegando. O poeta admirava aquela mulher tão batalhadora que morava com o marido na região. Era ela quem cuidava da casa e dele quando ali estava, há mais de 10 anos. Ela se aproximou diferente, sem o sorriso largo no rosto sincero.

– Vi no Jornal Nacional que o senhor tá doente, é verdade?

– Estou.

Ela o abraçou como se ele fosse um filho; chorou e prometeu levar seu nome à igreja de milagres que frequentava. Ela só não gostava nele dessa história de ser ateu. Não combinava com ele.

– Preciso escrever. Você me faz aquela galinha a molho pardo pro almoço?

– Faço. Quer café?

– Sim. Vou ficar debaixo da mangueira, escrevendo.

Sentou-se sob a árvore carregada de manga-espada. O cheiro da fruta perfumava o quintal. Um canarinho bicava a espada amarela no chão verde, enquanto as formigas trabalhavam como sempre. Lembrou-se do sonho com os alienígenas que não quiseram cura-lo e surgiu a primeira frase do poema a ser trabalhada:

” A vida é um disco voador suspenso no ar de tão irreal em sentido…”

Maria se aproximou trazendo o café fresco. O odor misturou-se ao das mangas. Ele bebeu com indescritível prazer. Maria deu um pequeno grito.

– Meu Deus! Olha o que está no telhado!

Um enorme balão todo prateado de São João estava deitado sobre o telhado da casa, por sorte não ocorrera um incêndio.

O poeta Josef Sant bebeu o café e escreveu a segunda frase:

” Cai cai coração sobre o teto da minha razão…”

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Os Derradeiros Dias do Poeta Josef Sant (5)

Mesmo sentindo-se cansado, as pernas reticentes, uma necessidade de caminhar o empurrava para a estrada que deslisava em barro diante do portão da casa. Um sol tímido, entre nuvens de neve e chumbo, dourava as bananeiras.

– Maria, vou caminhar um pouco.

– Vou com você, deixa eu calçar minha sandália…

– Não precisa. Quero caminhar sozinho.

– Entao não vá além da ponte, qualquer coisa me grita.

O poeta Josef Sant nunca vira Maria tão preocupada. A mulher deve achar que já estou moribundo, pensou ele, abrindo o portão, botando os pés no caminho.

O que ele mais gostava naquelas caminhadas era cruzar com a gente simples do lugar que não se importava com a fama do poeta. Havia alma ali que o chamava de Seu Zé dos livros, e nada mais.

A estrada estava úmida de chuva recente, o cheiro dos pinheiros tornava o ar saboroso. Os bem-te-vis em alvoroço, as borboletas em acrobacias agitadas. Essa presença natural que nos esmaga, nos colocando em nosso insignifcante lugar no mundo.

As casas que ali foram erguidas datam dos anos pré-ditadura, quando uma gente abastada via na serra o lugar perfeito para ficar longe do povo. Nessa aparente paz, há um conservadorismo de pedra que grita e contrasta com a gentileza e a bondade dos que travalham a terra.

Caminhou uns 200 metros e realmente se sentia cansado. Respirou fundo, devagar, buscando um ritmo menos intenso para o corpo que ja experimentava os efeitos da doença. Foi quando ao chegar numa curva, viu um velho caído na estrada. Perto do homem havia um cavalo com cela comendo capim.

Aproximou-se apressado, o homem respirava, os olhos semi-abertos mirando o céu. Ajudou o homem a sentar-se, a recompor-se. Pegou seu chapéu que rolara no barro, e ao entregar ao velho, ouviu um trovão anunciando mau tempo.

Ajudou o velho a montar o cavalo, e o velho o convidou a tambėm subir no lombo do animal. Ele obedeceu. Cavalgaram pela estrada em silêncio, bem além da ponte. Chegaram numa casa pequena, bem afastada, iluminada a querosene. A chuva desabou sobre a serra. O velho fez café no fogo que estalava na lenha. Ficaram em silêncio, enquanto a chuva cantava sua fúria.

Maria olhando a chuva, estava desesperada, onde estaria o poeta Josef Sant?

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Os Derradeiros Dias do Poeta Josef Sant (6)

Despertou ao som de um galo regendo o amanhecer. Dormira numa rede. As costas doiam. O velho já estava de pė, emoldurado pelo batente da porta. Segurava a caneca de cafė esmaltada em azul celeste, de onde escapava fumaça como um pequeno fantasma. O café era plantado na roça do velho, ele que morava sozinho com seus bichos e agricultura.

– Bom dia!

– Bom dia!

– A chuva passou, preciso voltar para casa.

– Levo o senhor.

– Obrigado. Está melhor? Perguntou Josef Sant.

– Não foi nada, disse o velho indo para o quintal.

Retornaram à casa no lombo do Fagulha, era assim que o velho batizara o cavalo. Ao chegarem à casa, Maria estava no portão despenteada, o marido ao lado, ambos com os olhos vermelhos denunciando que ninguém havia dormido. Ao verem quem estava com o poeta, se encolheram, mas não refutaram bom dia.

– Bom dia, adeus.

O velho seguiu pela estrada, trotando suavemente.

– Quase morri de preocupaçao, ia ligar pro seu Barbosa. – Disse Maria quase num tom de bronca. O Marido ficou quieto.

– O senhor passou a noite na casa dele?

Perguntou Maria com a voz quase sufocada.

– Passei. Ele ė calado, mas boa pessoa. Nem sei seu none.

O marido tossiu, ajeitando a garganta, como quem fica sem graça, Maria se aproximou de Josef Sant e disse baixinho.

– Antônio Caveira. Esse homem é pistoleiro, carrega muitas mortes nas costas.

O poeta Josef Sant ficou surpreso. Recordou que havia uma espingarda pendurada num canto da casa do velho. Jamais imaginaria tal coisa.

– Como vocês sabem disso? – perguntou Josef Sant com curiosidade.

– Todo mundo sabe, ele é antigo aqui, trabalha pra gente graúda. Se eu fosse você ficava longe dele. – Disse Maria entrando na casa, seguida pelo marido como sempre calado.

O poeta Josef Sant olhando a estrada, ficou a pensar de que valia a pena visitar esse homem, um dia. Havia nele algo que o atraia, seu jeito seguro e preciso, como alguém que não teme nada na vida. ELe que estava morrendo ir ao encontro de alguém que por ofīcio tirava a vida, era no mīnimo Literatura.

Estava decidido procurar o Antônio Caveira.

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Os Derradeiros Dias do Poeta Josef Sant (7)

O poeta Josef Sant acordou mal disposto. Quando o corpo severamente reclama nossa alma se manifesta. Do fundo do ser emergem reflexões sobre o sentido de tudo isto e o afeto que nos cabe. Há semanas o telefone celular estava desligado, ele que não utilizava aplicativos de conversa e vídeo. Quem tinha seu nūmero, e eram poucos, sabia que para falar com ele era à moda antiga.

Ligou o aparelho e os nūmeros que o chamaram foram exibidos na tela. Um dos nūmeros chamou-lhe a atenção. Observou o dia e a hora e refletiu se retornaria ou não. Apertou a tecla que exibia um telefone em verde.

– Oi.

– Como está?

– Dentro do possīvel, bem.

– Liguei pra saber. Que bom que está bem.

– As crianças como estão?

– Bem. Ana Luisa está feliz com a queda do dente de leite. Laura ficou resfriada. E o José entrou pra escolinha de futebol do Flamengo.

– Que ótimo. Mande um beijo para elas. E diga ao José que preferia que ele tivesse ido para o Fluminense.

– Digo.

– Bem, é isso. Obrigado por ligar…

A ligação foi encerrada com a frieza costumeira. Olhando o quintal através da janela do pequeno escritório, lembrou-se da filha pequena que agora tinha três filhos. Não compreende até hoje a distância que se estabeleceu entre eles, uma relação emperrada e marcada por sútil indiferença, principalmente por parte dela, Eliza.

Um sentimento de fracasso paterno aparecia em seu íntimo de vez em quando, mas sabia que não adiantava forçar nada. Na vida é corriqueiro esse desencontro.

Há pessoas que você divide o mesmo teto por anos e são eternos estranhos; e por vezes você está caminhando na rua e esbarra com alguém que vai estar verdadeiranente em sua vida. Nasce uma amizade, um amor que vai dar bons frutos.

A filha Eliza era uma estranha para ele e o poeta Josef Sant suspeitava que ela nem sentisse tanto o dia da sua morte.

Retirou a bateria do celular.

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Os Derradeiros Dias do Poeta Josef Sant (8)

Atrás da casa havia a garagem que mais parecia um depósito de coisas sem  utilidade. O marido de Maria, que o Poeta Josef Sant sempre trocava o nome, atendeu-lhe o pedido de abri-la. A luz do sol iluminou o ambiente empoeirado e cheirando a mofo. Tīmidamente o homem aconselhou-o a ficar do lado de fora.

– Euclides…

– Aristides.

O poeta Josef Sant suspeitava que era por causa de Euclides da Cunha, escritor que admirava, que insistia em rebatizar o calado Aristides.

Dentro da garagem estava o velho fusca 73 vermelho coberto por uma capa plástica transparente. O carro era uma relíquia deixada por seu pai, que ele raramente oferecia asfalto. Aristides retirou a capa com cuidado para não fazer subir a poeira, entrou no carro e o ligou, após uma explosão do escapamento. Numa ré segura, manobrou o fusca vermelho, estacionando numa clareira na lateral da casa.

O poeta Josef Sant não gostava de dirigir, mas sentiu uma vontade danada de explorar a serra dentro do veīculo que encarava bem as estradas com lama e buraco.

– Aristides, por favor, abasteça e lhe dê um banho no posto.

– Pode deixar.

– Tome 200 reais.

O fusca vermelho pegou a estrada na direção do centro da cidade.

Na cozinha Maria preparava o almoço, o cheiro do alho e do louro brigavam no ar. Ele sentou-se numa cadeira perto da janela e viu batatas a serem descascadas.

– Maria, quantos anos vive com o Euclides… Aristides?!, perguntou Josef Sant arrancando uma lasca de uma gorda batata.

– 40 anos.

– Puxa vida. Qual o segredo?

– Não tem segredo, ė sorte e vontade de Deus.

Ele ouviu a resposta aparentemente simplória e não pode discordar da sorte que ela colocara antes do Deus que acreditava.

– Eu não tive muita sorte com casamento…

Maria o interrompeu com algo que ele jamais imaginaria que ela dissesse um dia, nas fuças:

– O senhor ė homem complicado, que pensa demais! Mulher não aguenta muito tempo homens como o senhor. A vida não é tranquila.

Disse Maria refogando o feijão, enquanto o alho reclamava calor.

O Poeta Josef Sant ficou paralisado. Não conseguia achar argumento, só teve tempo de soltar um “merda!”

– O que foi?, Perguntou Maria.

– Cortei o dedo.

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Os Derradeiros dias do Poeta Josef Sant (9)

Os ladrões levaram o fusca vermelho, ao assaltarem o posto. Aristides reagiu e acabou com o rosto machucado. O poeta Josef Sant e Maria foram a UPA busca-lo. O homem, que era de ficar em silêncio, não parava de se desculpar por não ter conseguido evitar o roubo do carro.

– Esqueça isso, o importante é que você está bem, podia ter sido coisa pior. – consolou Josef Sant, mas realmente Aristides parecia inconsolável, como se tivesse cometido um grave pecado.

Maria ao ver que o marido estava bem ficou mais tranquila, em seguida deu um tapa forte no braço de Aristides, irritada.

– Pensei que depois de velho você tinha perdido essa mania de reagir! Podia estar morto!

Aristides finalmente ficou calado e voltaram pra casa no mesmo taxi que o haviam trazido ao hospital.

Na casa, Jose Sant teve a sensação de que realmente sua vida estava chegando ao fim, o roubo do fusca vermelho era mais que simbólico. A vida parecia estar encerrando histórias, realizando o inventário da sua existência. Uma tristeza leitosa lhe cobriu por inteiro, sentiu o corpo cansado, a alma com compromissos a encerrar.

– O que eu deve resolver? – Perguntou-se, erguendo-se lentamente, caminhando até o escritório, onde abriu um envelope bem guardano numa gaveta fechada à chave. De dentro dele retirou cartas trocadas com um amor secreto. Há mais de 10 anos não se falavam. Ela que estava disposta a separar-se do marido para ficar com ele. No entanto sua covardia o impediu de ir adiante, sem contar que o escândalo poderia atrapalhar sua vida como autor. Lucinda era mulher do seu editor.

– Lucinda, por favor.

– Quem deseja?

– Josef.

Um silêncio de montanha ergueu-se na linha e após alguns segundos a mulher falou.

– Sou eu.

– Preciso vê-la, antes que eu morra…

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Os Derradeiros Dias do Poeta Josef Sant (10)

O encontro com Lucinda o obrigava ir ao Rio. Não havia desejo de voltar à cidade, mas revê-la depois de 10 anos não era um compromisso qualquer. No portão esperava o amigo e advogado Barbosa chegar. Estava ansioso. Fizera a barba, colocara uma roupa mais apresentável, ele que era pouco vaidoso. Marcaram encontro num restaurante reservado em Santa Teresa. Foi nesse lugar a última vez que se viram. Debaixo do braço o envelope com as cartas e alguns poemas que ele escrevera para ela. Queria entregar-lhe, não desejava que após sua morte o conteúdo fosse revelado. Sabia que seria um prato cheio para a editora, mesmo que colocasse o editor numa situação desconfortável. O dinheiro sempre fala mais alto, os homens são capazes de sacrificar a honra e as virtudes por ele.

Pensando desta maneira, ouviu o trote de um cavalo se aproximando, sabia quem era. O velho Antônio Caveira parou próximo a ele, Josef Sant sorriu, e sem nada dizer Caveira sacou um revólver e descarregou-o no peito de Josef Sant. O poeta foi jogado para traz, batendo a cabeça contra o muro. O pistoleiro calmamente manobrou o Fagulha e foi embora como se nada de extraordinário tivesse acontecido.

No hospital a imprensa e curiosos estavam aglomerados na entrada. Na sala de cirurgia os médicos lutavam para salvar o poeta que havia incrivelmente resistido às 4 balas. Sagrara muito, mas nenhum órgão vital havia sido atingido. Na sala de espera estavam o Dr. Barbosa, o assessor de imprensa ao telefone, Maria, que não parava de derramar lágrimas, amparada por seu marido calado; Lucinda acompanhada pelo marido, o editor Silveira, a ex-mulher de Josef Sant, Olga que estranhamente apareceu no hospital, ela que sempre prezara por seu anonimato enquanto vivera com ele durante 25 anos de um casamento incomum. Olga olhou para Lucinda algumas vezes, demonstrando antipatia. Lucinda não ousava encara-la.

Finalmente a cirurgia acabara, Josef Sant resistira e as próximas 24 horas seriam cruciais. – Foi surpreendente como ele aguentou, mesmo doente. Há esperanças, as próximas horas teremos um panorama do quer pode ocorrer. – Disse o médico com o ar exausto.

Lucinda instintivamente soltou um “Graças!”, Olga deu-lhe um tapa no rosto e foi embora sem nada dizer. A cena paralisou a todos, até Maria parou de chorar. O marido que nada falava, emitiu um “eita!” de surpresa. Barbosa olhou para Silveira, o editor baixou a cabeça. O assessor de Imprensa com a assessoria do hospital emitiam nota oficial para a mídia.

Os Derradeiros Dias do Poeta Josef Sant (11)

Caro leitor, há momentos em nossa vida que nos deparamos com a inevitável compreensão da nossa impotência, quando nosso frágil corpo, o qual não temos controle algum, nem mesmo quando ilusoriamente controlamos alguns movimentos, é colocado à prova em circunstâncias que jamais imaginaríamos enfrentar. Recordo o amigo Victor, tão jovem e que admirava a arte de Josef Sant, quando perdeu o controle do seu carro e foi parar numa árvore centenária. Sua cabeça sofreu tão forte impacto que Victor jamais despertou do seu coma tão triste. O nosso poeta, protagonista desta novelinha de quinta, está em coma induzido e viajando por mundos que foram formados por resíduos cósmicos do seu inconsciente. Alerto o leitor que este capítulo é dedicado ao onírico, uma excursão pelo misterioso que nos habita e que geralmente se manifesta através dos sonhos. Ao poeta Josef Sant, cujo corpo tentar sobreviver, o mesmo em que o covarde linfoma trabalha para sua morte, somados a quatro furos de bala enviadas por Antônio Caveira, resta viajar por esses mundos, realizando uma faxina na alma. E antes que iniciemos o devaneio, compreenderei se o leitor ou leitora pular este episódio, talvez desnecessário, e aguardar a parte 12, quando novas ações humanas serão servidas no prato do entretenimento da farsa da vida. Vamos à viagem aos mundos de Josef Sant, em coma:

Mundum

Josef Sant está num deserto de areia branca, como se fosse gelo, mas o material é quente e faz calor como num deserto qualquer. O céu é vermelho, da cor do sangue, e em vez de sol ou lua, um ovo de galinha estrelado é o astro dominante. Ouve-se um som que lembra o gotejar de um vazamento, interrompido por alguém dando descarga no vaso sanitário. Josef Sant está despido e em vez de pés, possui duas pás de alumínio que limpa o seu caminho. Surge uma mulher também despida, sem seios, isto chama a atenção, tem os cabelos tão longos que é impossível ver o final da cabeleira. Ela fala com Josef Sant com uma voz sussurrada e que lembra a voz de alguém muito velho, não é possível ver o seu rosto, pois os cabelos negros cobrem-lhe a face. – Quem é você – Pergunta o Poeta Josef Sant. A mulher responde sussurrando, tirando o cabelo dos olhos, onde duas cruzes pretas estavam no lugar das órbitas: a morte. (O monitor cardíaco ao lado de Josef Sant, disparou)

Mundois:

Publicado por Francis Ivanovich

Cineasta cineasta escritor.

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