Os manipulares da Vida

Manipulação dos nossas emoções, sentimentos, crenças, vidas.

Após um ano e meio estudando Psicologia numa tradicional universidade brasileira, eu entendi que a nossa ignorância psicológica é o calcanhar de Aquiles de toda a sociedade. A nossa subjetividade foi descoberta, aquilo que de mais profundo está em você como pessoa, está sendo violado diariamente por supostas mentes brilhantes do Vale do Silício. A Psicologia está sendo usada para gerar lucro, atender interesses, escravizar digitalmente pessoas. Esta violência silenciosa é denunciada por Jeff Orlowski, em seu documentário “The Social Dilema”, produção da Netflix, 2020.

O diretor merece toda a nossa homenagem, pois prestou um grande serviço ao mundo. Está mais do que na hora de vermos estes “geninhos” da tecnologia serem chamados à realidade da vida, através da Justiça. O homem infelizmente parece só temer três coisas na existência: a finitude, a perda da liberdade, e a falência financeira. Esses rapazes do Silício, todos com cara de bem nascidos e gente boa, vestindo leves camisetas t-shirts, criaram um monstro que está causando graves danos às pessoas, aos países, à natureza, ao mundo.

No filme ouvimos estarrecidos os depoimentos de jovens que viveram o dia a dia das gigantes da tecnologia. Com destaque para a participação de Tristan Harris, ex-designer ético do Google e co-fundador do Center for Humane Tecnhology, que tornou-se um ativista que faz um sério alerta ao mundo. Estão manipulando nossas emoções por dinheiro. Outro entrevistado é Tim Kendall, ex-diretor de monetização do Facebook e ex-presidente do Pinterest, que não deixa seus filhos ficarem na frente da tela de um computador. Outro é Justin Rosenstein, ex-engenheiro do Google e do Facebook, e criador do botão de like, que afirma que o botão foi criado com boa intenção, mas que converteu-se num poderoso mecanismo monetizador. Mais likes mais money! Também no filme Jaron Lanier, cientista da computação e um dos precursores da realidade virtual, que também nos chama a atenção sobre o caminho perigoso que as redes sociais tomaram.

Uma das imagens que mais me chamou a atenção, é quando cada entrevistado fica em silêncio diante das câmeras. A Câmera, e constantemente trabalho com elas, é uma ferramenta que tem o poder de revelar o oculto numa pessoa, cena ou numa paisagem. Vejo nos olhos de cada entrevistado uma angústia, um medo, uma voz interior dizendo, não tem volta, comprei uma briga muito feia, estou marcado. É preciso coragem, é verdade, para denunciar essa indústria da manipulação das emoções, dos sentimentos, de crenças. As redes sociais urgem por serem regulamentadas, a nível mundial, num grande acordo entre países, pois caso contrário, essas empresas poderosas continuarão a se comportar como Estados paralelos, impondo seus interesses, seus políticos, hábitos de consumo, silenciando as liberdades individuais e coletivas. Essas empresas que dizem respeitar a liberdade de expressão, mentem descaradamente, pois é justamente o que fazem, manipulam as liberdades visando o lucro insaciável de seus acionistas.

Devemos ver e debater este filme, em casa, nas escolas, na sociedade. O caos que estamos mergulhados, agravados pela pandemia do Covid-19, tem muito a ver com essas empresas que dominam técnicas psicológicas, dados, informações, e que estão se tornando a maior ameaça existencial à espécie humana. As bombas nucleares têm a capacidade de destruir o planeta e nossa espécie, mas elas para serem usadas não é tarefa das mais fáceis, já essa ameaça virtual é como uma doença silenciosa que vai se alastrando ao ponto de nos levarmos à morte.Sabemos que não é possível voltar atrás, mas é preciso uma resposta rápida contra essa situação absurda, revoltante, que nos afeta em todas as áreas da vida individual e social. A Lei é a resposta. Regulamentar, disciplinar, responsabilizar essa indústria tecnológica é mais do que necessário, é uma questão de sobrevivência.

Não é somente a democracia e a liberdade que estão em jogo, é a nossa própria vida.

Francis Ivanovich

jornalista/diretor de cinema.

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